Teologia do Prato

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Hum… acho que nós (a sociedade em geral) valoriza demais os cães simplesmente por serem “bonitinhos” e “espertinhos”, tratando-os com uma dignidade as vezes maior do que a de um ser humano. Muitos cachorrinhos passeiam vestidos e perfumados em calçadas de bairros de luxo, enquanto alguns humanos catam comida no lixo da cidade suja.

Por outro lado, o porco é visto como o símbolo da sujeira, da imundície. E por tanto os olhos humanos vêm nele tão somente a matéria prima para o bacon, a linguiça… etc. Para a nossa sociedade, o porco é como um recurso mineral qualquer. Ou seja, não tem nenhum valor por ser vivo, mas apenas por ser útil.

Mas então, comemos ou não comemos?

A nossa sociedade secularizada, materialista, perdeu o respeito pela vida. Não respeitamos mais alguém ou algo (animal ou vegetal) simplesmente por ser vivo. Valorizamos apenas o que nos é útil. Só não nos matamos uns aos outros porque a nossa segurança individual depende de um bem estar social, garantido por leis, convenções e tratados. Vemos tudo como recursos, recursos humanos ou recursos naturais. Agimos como se nada tivesse valor em si mesmo. A árvore centenária é cortada para não atrapalhar o trânsito.

Mas quando digo que não respeitamos a vida, não estou me referindo à vida entendida como o período entre o nascimento e a morte. Estou falando de vida em uma concepção mais ampla, mais difícil de definir. (talvez por isso o desrespeito: para o homem racionalista, tudo o que não é racionalizável não pode ter valor algum)

Por acaso a vida é apenas este curto período de tempo entre o nascimento e a morte? Então viver muito é viver muitos anos? O passarinho que envelheceu na gaiola viveu mais do que aquele que voou alto e foi pego pelo gavião?

Quando digo que não respeitamos a vida, estou dizendo que não respeitamos a natureza da vida. Ignoramos etapas, aceleramos processos, distorcemos ciclos, desprezamos papéis, rejeitamos realidades… Por exemplo: a morte. A morte faz parte da vida. Todo ser vivo morre. E não nos preparamos para ela, apenas tentamos evitá-la e adiá-la ao máximo. Mas ao mesmo tempo, mantemos um estilo de vida auto-destrutivo. Envenenamos nosso corpo com doses mortais do corstisol, proveniente do estresse de nossa busca visceral pelo conforto e segurança, que supostamente nos garantiriam uma boa qualidade de vida.

Desrespeitamos a vida quando colocamos um cão para viver em um apartamento. Não é o habitat dele. Desrespeitamos a vida quando produzimos porcos, frangos, vacas como se fossem apenas elementos de um processo industrial.

E porque comemos o porco e não o cão? Pensando sobre isso, acho que é uma questão puramente cultural. Alguns chineses comem cães. Os judeus não comem porco. Os japoneses comem carne de cavalo. Alguns hindus adoram as vacas. Cultura é assim, o que é absurdo para uns pode ser absolutamente normal para outros.

Então qual é a minha conclusão? Eu, Paulo Marins, habitante do topo da cadeia alimentar, agradeço a Deus pelo porco. Agradeço pela bênção do paladar, pela delícia que é a carne deste animal, e por poder me nutrir desta matéria orgânica que já foi outrora um ser que respira. Há algo de sagrado nisso. É uma vida sendo sacrificada para alimentar outra vida. Algum respeito o porco merece de nossa parte, e até mesmo um humilde pedido de desculpa e um sincero agradecimento. E por isso tento moderar na carne – e me considero pecador quando me deixo levar pela gula. Pois se um animal morre por minha causa, que seja para dar continuidade à cadeia da vida e não para satisfazer a minha luxúria gastronômica. Além do mais, não quero ser patrocinador da devastação do planeta, pois se a gula individual faz mal à saúde da pessoa, a gula de uma sociedade também é prejudicial à saúde planetária. Ela agride a vida ao impulsionar o desmatamento, aumentar a criação de animais em condições “desumanas” de confinamento, gerar resíduos que dificilmente serão reciclados, e por aí vai… tendendo ao infinito.

Não sou vegetariano (apesar de respeitar quem é) porque entendo que sou onívoro, e que este é o propósito da natureza. Sou totalmente contra o mal trato dos animais, mas, por outro lado, não tenho pena do fato de um animal virar comida, pois este é o ciclo da vida. Louvo a Deus pela maravilha que é o universo, que está sempre em mutação, sempre se renovando, sempre se reciclando. Hoje eu me alimento do porco, amanhã estarei alimentando os vermes embaixo da terra. E os vermes adubarão a terra, que será alimento do pasto, que por sua vez deliciará o gado, gado este que sustentará os seus predadores.

Somos pó, e ao pó retornaremos. Por isso creio que devemos respeitar mais a natureza. Usando um termo muito bem aproveitado pelos franciscanos, temos que nos irmanar com os outros seres. Não por sermos animais racionais, porque eu creio que o que nos aproxima do cachorrinho e do porco não é o fato de nós humanos também sermos animais. E o que nos diferencia deles não é o fato de sermos racionais. O que nos aproxima é que todos nós – eu, você, o cão, o porco, a árvore, a montanha e a água – somos criação de Deus, e nisso somos todos iguais. E o que nos diferencia é que de todas as criaturas, de todas as coisas criadas, nós somos a mais elevada, a mais parecida com o criador, e por isso temos a imensa responsabilidade de servir, cultivar e proteger todos seres, principalmente os mais fracos.

Feminismo cristão?

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Gostei do insight que me trouxe o pensamento de Chesterton. Mas acho que se a intenção dele era reprovar o feminismo, a crítica não é válida. Em minha simplicidade, acredito que o feminismo surgiu como uma reação a um contexto em que as mulheres não apenas “ajudavam seus maridos”, mas eram em geral exploradas, abusadas e oprimidas mesmo. Foi algo realmente necessário. É claro que sempre houve exceções; sempre houve romantismo, cavalheirismo… Mas a regra geral, ao que me parece, sempre foi injusta. Por isso é natural que quando houvesse oportunidade elas se rebelassem contra um sistema que impunha a submissão das mulheres à rudeza e aos caprichos de homens que as viam como meras serviçais e objeto de uso sexual. Continuar a ler

Porque eu deixei a carreira de administração de empresas antes mesmo de começar

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Uma amiga perguntou: “quem é mais fútil? a mãe que banca ou a filha que consome??? QUAIS SÃO OS VALORES DA ATUALIDADE?????”

E eu acrescento:

Quem é mais fútil, a mae ou a filha? Ou os administradores que estudam o comportamento humano e criam as marcas e o valor subjetivo que elas carregam e assim conseguem ganhar rios de dinheiro vendendo coisas que as pessoas não precisam a um alto preço e pagando aos seus empregados salários que não bancam uma vida digna? Quem é mais fútil? A menina que busca status social ostentando um tênis, às cutas do salário da mãe? Ou o empresário, que busca status social ostentando um carro de luxo, às custas de seus empregados e dos consumidores manipulados? Eu tenho pena é da mãe, que por amor e ignorância é explorada pela filha ao mesmo tempo em que, por um salário provavelmente baixo, passa a vida andando de ônibus e limpando casas elegantes nas quais nunca vai morar. Continuar a ler

Profetismo em Israel

Profetismo em IsraelNas páginas que se seguem, apresento um resumo do livro “Profetismo em Israel. O profeta. Os profetas. A mensagem.”, de autoria de José Luiz Sicre, professor na Universidade de Granada e no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, licenciado em filosofia e doutor em Sagrada Escritura. Este resumo se concentra na segunda parte do livro “Os profetas”, devido à sua maior relevância para o iniciante na prática da exegese. Visto que a primeira parte trata-se de um estudo mais minucioso sobre a atividade profética, e a terceira dedica-se a uma tentativa de aplicação da mensagem dos profetas de ontem para os dias de hoje.

Ao selecionar o texto para compor este resumo, atribuí mais valor às informações referentes ao contexto e à vida de cada profeta, e menos aos dados mais detalhados como interpretações de passagens, opiniões de comentaristas, teorias sobre datação, etc. Penso assim poder captar os detalhes mais abrangentes, indispensáveis a qualquer abordagem do texto bíblico. De modo que ajude o estudante a captar a mensagem mais ampla de cada profeta, e que o livro seja mais facilmente manuseado posteriormente, na necessidade de informações mais profundas sobre textos específicos. Continuar a ler

As leis da simplicidade

ImagemEm um mundo que se torna mais complexo a cada minuto, a simplicidade vai sendo cada vez mais desejável. Mas atingir a tão desejada simplicidade nem sempre é tão simples – com o perdão do trocadilho. Comecei a meditar sobre isso no dia em que me deparei com esta frase que anda circulando pela net:

Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

Pois bem, se há muito trabalho a ser feito, é bom saber que já existe gente pesquisando o tema e escrevendo livros pra facilitar a nossa vida. É o caso do John Maeda, designer e professor no MIT. Sinceramente, não lembro como que encontrei o livro dele (passou-se muito tempo desde que eu baixei o pdf até o momento em que comecei a ler), só sei que fui facilmente seduzido pelo título: as leis da simplicidade. Continuar a ler

Minima Sacramentalia: Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos – Leonardo Boff

0Sacramento. Segundo o dicionário Aurélio: “cada um dos sete sinais sagrados instituídos por Jesus Cristo para distribuir salvação divina àqueles que, recebendo-os, fizeram profissão da fé”. Mas o senhor Aurélio Buarque de Holanda não era um teólogo, a definição dele é uma síntese do entendimento católico de sacramento.

Segundo o catecismo da igreja católica:

Os sete sacramentos são os sinais e os instrumentos pelos quais o Espírito Santo difunde a graça de Cristo, que é a Cabeça, na Igreja, que é seu Corpo. A Igreja contém, portanto, e comunica a graça invisível que ela significa.[1] (grifo meu)

E ainda:

os sacramentos são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais nos é dispensada a vida divina. Os ritos visíveis sob os quais os sacramentos são celebrados significam e realizam as graças próprias de cada sacramento. Produzem fruto naqueles que os recebem com as disposições exigidas.[2] (grifo meu)

Podemos perceber então três características importantes do sacramento católico: é uma instituição de Jesus Cristo, é canal de recebimento da graça divina e é administrado pela “igreja”. Entretanto estes três pontos são facilmente questionáveis, mas vamos por enquanto nos ater a um deles, o primeiro. Continuar a ler

Inácio de Antioquia

BIOGRAFIA

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Nasceu na Síria entre 35 – 50 d.C. Pouco se sabe do início de sua vida e muito menos de sua família, segundo a lenda Inácio foi a criança que Jesus segurou em Mc 9:33 foi discípulo do apóstolo João, segundo Eusébio de Cesaréia sucedeu Evódio como terceiro bispo na Igreja de Antioquia. Segundo a lenda, Inácio foi a criança que Jesus segurou em seus braços em Mc 9:33. Escreveu sete cartas que foram escritas entre as breves paradas das suas viagens, estas são: a Policarpo de Esmirna, aos Efésios, Esmirniotas, Filadélfos, Magnésios, Romanos e aos Trálios.

Sua influência e autoridade era tão grande que era conhecido como Teóforo (do grego antigo ϑεοϕόρος, composto de ϑεο- “deus” e -ϕόρος “portador”) Por volta de 107 d.C, nono ano do reinado de Trajano, foi preso e levado a Roma, onde foi entregue as feras nos Coliseu. Inácio via o seu martírio como uma forma de anunciar o evangelho e como gesto de entrega ao Senhor. Continuar a ler

Ágora (Alexandria), o filme.

agora_ver2O filme Ágora, no Brasil Alexandria, conta a história da filósofa Hipátia, relacionando-a com os eventos sociais e políticos que ocorreram na cidade e no império naquele período.

Aviso: spoiler

Hipátia viveu em Alexandria, no Egito, entre 355 e 514, dentro do período em que o Egito fez parte do império romano. A estória narrada no filme inicia em 391. Nesta época o cristianismo, que até pouco tempo antes era proibido, já era um culto permitido e até mesmo favorecido pelo imperador. Continuar a ler

Influências gnósticas no filme “A Última Tentação de Cristo”

SINOPSE

A ultima     A Última Tentação de Cristo é um filme estadunidense de 1988, baseado no livro homônimo publicado em 1951 pelo escritor grego Níkos Kazantzákis. A obra conta a história de Jesus – não baseada nos evangelhos – desde os momentos anteriores ao início do seu ministério até a sua morte na cruz, passando por um período em que ele imagina como teria sido sua vida se não tivesse que se sacrificar pela humanidade. É fácil perceber que o personagem Jesus é bem diferente da pessoa descrita nos evangelhos. O drama cinematográfico traz várias variantes sobre a história e a pessoa de Jesus. Aqui será analisada a influência do pensamento gnóstico na trama do filme. Mas antes disso, é importante esclarecer um pouco o que é o gnosticismo. Continuar a ler

A influência do calvinismo na política

Politica       Em uma série de palestras posteriormente condensadas em um livro, o Dr. Abraham Kuyper discorreu sobre as influências do calvinismo sobre diferentes áreas da atividade humana, perante o Seminário Teológico de Princeton, em 1898. Entre estas áreas analisadas pelo teólogo holandês estava a política.

      Kuyper inicia a sua argumentação afirmando que “nenhum esquema político jamais se tornou dominante a menos que tenha sido fundado numa concepção religiosa específica ou numa concepção anti-religiosa.” E como ele nos mostra, o calvinismo não permaneceu inscrito na esfera da religião, mas abraçou todas as dimensões da sociedade, e não foi diferente com a política. Continuar a ler