Feminismo cristão?

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Gostei do insight que me trouxe o pensamento de Chesterton. Mas acho que se a intenção dele era reprovar o feminismo, a crítica não é válida. Em minha simplicidade, acredito que o feminismo surgiu como uma reação a um contexto em que as mulheres não apenas “ajudavam seus maridos”, mas eram em geral exploradas, abusadas e oprimidas mesmo. Foi algo realmente necessário. É claro que sempre houve exceções; sempre houve romantismo, cavalheirismo… Mas a regra geral, ao que me parece, sempre foi injusta. Por isso é natural que quando houvesse oportunidade elas se rebelassem contra um sistema que impunha a submissão das mulheres à rudeza e aos caprichos de homens que as viam como meras serviçais e objeto de uso sexual.

Sufragio universal

 

O movimento feminista conquistou muitos benefícios pelos quais devemos ser gratos hoje. Posso citar por exemplo a maior participação do homem na atividade doméstica e na educação dos filhos (que ainda tem muito a avançar), as leis de proteção contra a violência e o direito de participação das mulheres em todas as esferas da sociedade. Apesar de tudo isso, o movimento atual, por mais que eu tente ser compreensivo, não consegue me convencer muito bem. Na minha fecal opinião (MACHADO, 2011) me parece desfocado, desatualizado e desorganizado.

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Li em alguma apologética feminista que o “feminismo é a ideia radical de que as mulheres são gente”. Não poderia haver um slogan mais ufanista, pois embora seja fato a longa história da repressão da mulher, sempre houve exceções, como eu já mencionei. Há dois mil anos Jesus já estava chocando o mundo pela forma como tratava não só as mulheres, mas também vários outros tipos gente marginalizada. Ele não combateu as divisões de papeis entre os gêneros. Por outro lado, também não carimbou o modelo de sociedade vigente na época. O que ele fez foi simplesmente tratar todas as pessoas com igual dignidade – mesmo a quem repreendia. O mestre não dispendeu tempo regulando o que mulher pode fazer, o que não é coisa de homem, o que se deve vestir, etc… Só deu o princípio a ser seguido. Princípio este que Paulo se deu ao trabalho de tentar traduzir para a sociedade de sua época; dizendo quais as atitudes que expressavam o amor conjugal naquela cultura; quais as práticas que contribuíam com o equilíbrio e sanidade do relacionamento; quais eram os comportamentos que (apesar de tudo ser lícito) convinham em Corinto, Roma, Éfeso… Infelizmente ao longo dos séculos as palavras de Cristo foram sendo distorcidas, seus ensinamentos invertidos e sua autoridade utilizada para subjugar os fracos – exatamente o oposto do que fez e indicou que seus seguidores fizessem. Por isso acho também natural que muitas mulheres e homens tenham desprezo pelo cristianismo. Temos que reconhecer isso. A história deu motivos para esta aversão. Por outro lado, elas também tem que reconhecer que este cristianismo que elas rejeitam é falso. É um “pseudo-cristianismo” que os cristãos autênticos também combatem.

Cristo

Por fim, tenho mais um fato a ponderar. Embora em muitos aspectos a vida das mulheres tenha melhorado muito em relação aos séculos passados, em outros me parece que piorou ainda mais. A coisificação da mulher tem atingido níveis desumanos na mídia, no mercado, na sociedade de consumo. Se antes eram escravas do marido, agora são escravas da indústria de cosméticos. Se antes eram oprimidas pelo ideal de pureza católico-romano, hoje são oprimidas pelo modelo de estética hollywoodyano. Se antes não tinham direito ao desejo e prazer sexual, agora são constrangidas a satisfazer a luxúria de uma sociedade obsessiva. Infelizmente não tenho visto feministas protestarem contra a indústria da pornografia, contra as piadinhas de mulher-ao-volante, contra os rígidos padrões da indústria da moda ou contra os esteriótipos das propagandas de cerveja. O que vejo é um movimento desnorteado, tentando chocar os religiosos e reivindicando uma liberdade sem limites éticos. Como é que tirar a roupa em público pode contribuir para a dignidade da mulher? Como é que um movimento chamado “marcha das vadias” pretende conquistar o respeito de uma sociedade extremamente apática a causas alheias? E definitivamente, como é que o ato de introduzir um crucifixo na bunda no meio da rua pode reduzir preconceito de religiosos conservadores? Enquanto ativistas se preocupam em se impor e aparecer, diariamente incontáveis mulheres estão tendo que aceitar uma condição de vida humilhante nesta sociedade onde a exploração nunca sacia a ganância dos poderosos.

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Sim, a causa é valida. Sou a favor da igualdade entre os gêneros. (Igualdade de valor, respeitando as diferenças naturais) Creio sim que há muitas coisas que precisamos mudar. Contudo, o tempo passa, a sociedade muda, e toda teoria/ideologia/cosmovisão tem dificuldade de se adaptar. A relação conjugal de hoje já é muito diferente daquela de poucas décadas atrás, o lugar da mulher (e do homem) na sociedade também. O feminismo, como toda ideologia, cresceu e se ramificou, de modo que fica difícil falar sobre ele de forma genérica, já que podemos falar de “feminismo cristão”, “feminismo negro”, “feminismo radical”, “feminismo ___”. Por isso entendo que não faz sentido tentar afirmar se o feminismo está certo ou errado (como se pudéssemos hoje nos referir a este fenômeno como algo definido). Como cristãos, acho que seria muito melhor tentarmos nos dedicar a desenvolver uma proposta de relação harmônica e equilibrada entre mulheres e homens. Uma proposta nova, para a sociedade atual. Nova, no sentido de não se expressar nos termos do feminismo, nem se firmar nas bases do tradicionalismo. Mas ao mesmo tempo atemporal, no sentido de partir dos princípios do evangelho; e caminhar em direção ao ideal das relações regidas pelo amor, e não pela justiça. Porque onde há amor, a justiça perde sua necessidade.

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