Pós-modernismo

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Recentemente tive que ler e fazer um resumo do livro “Pós-modernismo. Um guia para entender a filosofia do nosso tempo“, do teólogo Stanley J. Grenz. Não é uma análise profunda, mas sim uma introdução ao tema. Achei bem interessante, e por isso compartilho aqui este sintético resumo:

Para compreender a pós-modernidade é preciso conhecer sua antecessora, a modernidade, pois aquela vem surgindo como oposição a esta, através da contestação dos seus fundamentos.

O fundamento da modernidade é a razão. Isto não significa que antes da modernidade (ou depois dela) a razão não fosse utilizada, mas sim que esta época passou a utilizá-la de uma forma específica, como fundamento de todo conhecimento.

Antes a razão era utilizada para compreender o mundo. Aristóteles é o grande ícone desta forma de pensamento, devido ao seu desenvolvimento da lógica como instrumento de construção do conhecimento. Ele estudava a natureza de uma forma metódica, através da descrição, análise, classificação, etc. Sua influência se estendeu por todo o mundo da antiguidade.

O  pensamento cristão – desde seu primeiro embate com a cultura helenística até o período da reforma, passando por toda idade média – conquanto se apoiasse sobre a revelação divina, ainda utilizava a razão como método da produção de conhecimento. Seu maior ícone provavelmente seja Tomás de Aquino, que utilizava a razão para sistematizar a teologia, para estudar a natureza e até mesmo para argumentar a existência de Deus.

O que mudou com a modernidade foi que a razão passou de um mero instrumento do conhecimento para ser o próprio fundamento dele. O grande marco desta virada foi o pensamento de Descartes. Inspirado nos avanços da matemática, na qual o conhecimento é sempre puro e objetivo, derivando diretamente da razão, este filósofo utilizava o ceticismo como ferramenta para eliminar qualquer conceito que não pudesse ser devidamente fundamentado racionalmente. Da dúvida ele conseguiu tirar uma certeza: se há dúvida é porque há uma mente que duvida, portanto a mente pensante é inquestionável. A partir de então, a razão passou a ser o fundamento de todo conhecimento, e os filósofos posteriores seguiram os passos de Descartes

The wanderer above the mists

Entretanto, os modernos ainda criam que havia uma ordem no mundo que poderia ser apreendida pela razão. Eles tinham a esperança de que através da razão conseguiriam desvendar as leis da natureza, compreender o ser humano, e até mesmo encontrar os fundamento para a moral. Cria-se que havia uma correspondência entre a realidade e o conhecimento produzido através da razão. Ou seja, a razão desvendava a realidade.

O pensamento pós-moderno difere fundamentalmente de seu antecessor, porque contraria justamente seus pressupostos básicos. Se os modernos criam que havia uma realidade objetiva, que podia ser apreendida pela razão, os filósofos pós-modernos vieram com a argumentação de que a razão humana não faz mais do que interpretações do mundo com o qual se relaciona.

Segundo Nietzsche, o que a razão faz é uma redução da realidade. Para ele o mundo é altamente complexo, nenhum acontecimento é igual ao outro. E por isso quando falamos sobre “leis da natureza”, padrões, categorias, o que estamos fazendo é roubar a complexidade da realidade e impor ao mundo a nossa forma [simplista] de vê-lo. Consequentemente, ele rejeita a ideia de que a razão desvenda a realidade que existe fora de nós. Em oposição a isto, sua afirmação é de que a razão cria uma realidade em nossa mente, a qual jamais corresponde à complexa realidade do mundo exterior. Logo, o conhecimento já não é mais um ato de descoberta e sim de criação. O ser humano organiza as suas experiências com a realidade em um sistema que lhe dê significado à existência. Devido a isto, Nietzsche conclui que os valores não eram algo objetivo e absoluto, que poderiam ser encontrados através da investigação da natureza, mas sim criações humanas.

Como podemos ver, o pós-modernismo inverte a forma de compreender o mundo. Antes, no ideal iluminista, a questão era descobrir as leis que governavam a natureza (e consequente o homem também). Agora, no pós-modernismo, tudo é uma questão de interpretação. Antes havia uma realidade objetiva, comum a todos os humanos, aguardando ser desvelada. Agora a realidade é considerada inatingível, e o esforço individual para a compreensão do mundo já não nos leva a um ponto em comum, mas sim a uma miríade de interpretações individuais.

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Seguindo a partir deste pensamento, Foucault vem apresentar a sequência lógica deste argumento relativista: se a realidade é uma criação individual, e não um objeto igualmente acessível a todos, então qualquer conhecimento que tente se sobrepor a outros estará cometendo uma violência. Para ele, a sociedade cria conhecimento para exercer poder sobre as pessoas. Ou seja, toda tentativa de criação de um conhecimento (interpretação) universal é na verdade a destruição de todas as diversas  formas  de conhecimento (interpretações) concorrentes. E isto é uma injustiça, já que não há um conhecimento correto (verdade), pois todos são igualmente mera imaginação humana.

A sequência destes pensamentos teve consequências na compreensão da linguagem. Os pensadores começaram a perceber que a linguagem não tem um fundamento fora de si mesma. Ou seja, não há nenhuma correspondência entre as palavras e a realidade, pois a linguagem é apenas uma ferramenta humana utilizada para comunicar. Para Saussure a linguagem é um jogo, um sistema, no qual as palavras só possuem significado em determinado contexto. Ou seja, o significado dos termos não é absoluto, mas relativo ao relacionamento entre eles. Jacques Derrida aplica este conceito não somente à linguagem, mas também o pensamento. O desdobramento disso tem consequências na filosofia. Pois se a linguagem não tem uma referência externa, ela já não é capaz de servir ao filósofo para buscar um “significado transcendental”. Consequentemente, a metafísica não teria valor nenhum, e a filosofia seria apenas uma forma a mais de literatura. Por fim, Richard Rorty, pregador do pragmatismo, assevera que deveríamos abandonar a busca pela verdade e nos contentarmos com a interpretação.

Isto levou os filósofos pós-modernos a rejeitarem outro princípio dos seus antecessores: a busca de uma metanarrativa universal. Ou seja, enquanto os modernos buscavam uma metanarrativa que substituísse os antigos mitos e unificasse a humanidade em direção ao progresso, os pós-modernos rejeitam qualquer tentativa de universalização, e aceitam que as diferentes narrativas convivam paralelamente, mesmo que conflitantes.

Mas além dos ataques dos filósofos à epistemologia iluminista, houve também um fator social que levou ao colapso do pensamento moderno. Durante a modernidade havia-se uma grande expectativa sobre o futuro da humanidade. A confiança na capacidade humana e a crença na supremacia da ciência geraram uma esperança de que a humanidade seguiria dali pra frente em constante evolução em direção ao progresso. Na mente moderna, a ciência conduziria a humanidade a um progresso inevitável. Mas o que houve foi o contrário, o horror das duas grandes guerras foi um balde de água fria na esperança modernista. Os campos de concentração e as bombas atômicas foram um exemplo gritante do potencial autodestrutivo da humanidade.

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A junção destas influências, teóricas e sociais, geram a cultura pós moderna, que vem emergindo cada vez mais influente nas novas gerações. Esta nova cultura é marcada por alguns aspectos como:

– Dúvida de que o conhecimento seja inerentemente bom e de que estejamos melhorando cada vez mais;

– Descrença na capacidade da humanidade de resolver seus problemas;

– Rejeição à suposição iluminista de que a verdade é exata e, portanto, demonstrável através da razão, gerando uma valorização da pluralidade, em detrimento da busca por uma verdade única;

– Valorização da dimensão comunitária, em lugar do universalismo;

– Visão holística, valorizando também as dimensões afetiva e intuitiva, além da cognitiva.

Vários conceitos do pensamento pós-moderno vão de encontro com os conceitos cristãos. A rejeição à verdade absoluta talvez seja o maior conflito. Entretanto, algumas críticas do pós-modernismo dirigidas à ideologia moderna podem ser consideradas válidas a partir da perspectiva cristã. De fato, a teologia concorda que a razão humana não é uma ferramenta suficiente para compreender a realidade. Entretanto, enquanto os pós-modernos abrem mão de compreender a realidade objetiva, os cristãos afirmam que a revelação é o fundamento que sustenta o conhecimento racional.