As leis da simplicidade

ImagemEm um mundo que se torna mais complexo a cada minuto, a simplicidade vai sendo cada vez mais desejável. Mas atingir a tão desejada simplicidade nem sempre é tão simples – com o perdão do trocadilho. Comecei a meditar sobre isso no dia em que me deparei com esta frase que anda circulando pela net:

Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

Pois bem, se há muito trabalho a ser feito, é bom saber que já existe gente pesquisando o tema e escrevendo livros pra facilitar a nossa vida. É o caso do John Maeda, designer e professor no MIT. Sinceramente, não lembro como que encontrei o livro dele (passou-se muito tempo desde que eu baixei o pdf até o momento em que comecei a ler), só sei que fui facilmente seduzido pelo título: as leis da simplicidade.

Pra ser sincero, não é um livro fantástico, mas me surpreendeu. Esperava algo um pouco chato de ler, como são os livros sobre organização, processo, produto etc… (geralmente escritos por administradores) mas ele é bem agradável. Apesar de ser um livro escrito especialmente para profissionais, ele não foi escrito com a frieza de um livro técnico. O autor usa linguagem informal e faz referência a muitas experiências pessoais para explicar suas ideias. É aquele tipo de livro que conversa com você. Aliás, um livro que verse sobre a simplicidade não pode pecar pela falta dela no próprio livro!

São dez leis. Algumas delas se desdobram em princípios, que geralmente são acrônimos fáceis de lembrar, como ELA e BRAIN (evidentemente são um pouco prejudicados pela tradução). O japa é bem humorado, e utiliza o bom humor para dar um tempero no texto. Como quando ele diz “ELA está sempre certa”, ou “use a ferramenta BRAIN”.

Mas apesar da simplicidade do texto e da informalidade da narração, Maeda trabalha com sabedoria cada tema. Ele não é ingênuo para propor acabar com toda complexidade. Não, em tudo ele busca o equilíbrio perfeito. Reconhece a importância de cada um dos extremos e não tenta dar “a resposta certa” quanto à proporção de cada uma. O que ele parece fazer é abrir nossos olhos, aguçar a sensibilidade do leitor, para aprendermos a lidar com estes dilemas. Também não se preocupa em descrever sequências de passos a serem dados, mas sim princípios que servem para nortear a busca pessoal por simplicidade de cada um. Por exemplo, no capítulo sobre ORGANIZAR ele parte do princípio de que a grande questão é responder a duas perguntas: O que vai com o que? e O que precisa estar acessível? Toca levemente alguns temas mais abrangentes, como percepção, aprendizado e emoção, que dão maior riqueza de perspectiva às ideias apresentadas. E por fim, o professor do MIT ainda  teve a grandeza de não se limitar a questões profissionais, mas deixar transparecer as suas inquietações e percepções a respeito da vida. Isto tornou o livro muito mais atraente para mim, e terminei de ler com a sensação tive uma conversa muito agradável com este tal de John Maeda.

Tentar explicar melhor o livro seria prolixo. Então, em obediência à Lei n°1 “Reduzir”, encerro o meu texto aqui, e deixo a seguir apenas alguns dos trechos mais gostei:

“Uma vez fui aconselhado por meu professor Nicholas Negroponte a tornar-me uma lâmpada elétrica em vez de um raio laser, com uma idade e em uma época na minha carreira em que eu era todo foco. O seu ponto de vista era: você consegue fazer brilhar um único ponto com a precisão de um raio laser, ou utilizar a mesma luz para iluminar tudo à sua volta. O empenho para atingir a excelência normalmente implica o sacrifício de tudo o que existe no segundo plano de prol da preocupação com tudo de importante no primeiro plano. Assumi o desafio de Negroponte como uma meta mais elevada, a de encontrar o significado de tudo que está à nossa volta, em vez de apenas daquilo que enfrentamos diariamente.”

“Existe um importante intercâmbio entre estar completamente perdido no desconhecido e completamente localizado no familiar. O familiar demais pode ter o aspecto positivo de fazer sentido completo, que, para alguns, pode parecer entediante; desconhecido demais pode ter a conotação negativa de perigo, que, para alguns, pode parecer temerário. Desta forma, há um intercâmbio entre o estar localizado versus perdido. Sua sensação de juventude, estado de saúde e senso de aventura ditarão sua preferência por segurança versus entusiasmo para encontrar o equilíbrio exato em que você pode ficar ‘confortavelmente perdido’.”

 “Quanto mais o sistema souber sobre você, menos você terá de pensar. Em contrapartida, quanto mais você souber sobre o sistema, maior o controle que você será capaz de exercer.

Todos os dias alguns dos jovens mais inteligentes do mundo vêm visitar-me em meu escritório no MIT. Embora oficialmente eu seja o professor deles, considero-me, com frequência, seu aluno. Por exemplo, recordo-me de um aluno chamado Marc que se voluntariou para trabalhar em abrigos para pobres já no final de suas vidas. Embora ele viesse de uma família próspera e pudesse facilmente fechar os olhos para os mais pobres, Marc afirmou que sempre se sentiu compelido a ajudar os necessitados. Contou-me que, enquanto trabalhava no abrigo, percebera que cada paciente tinha uma única prateleira junto da cama contendo o total de seus pertences mundanos. Presenciar tal situação fez com que ele se perguntasse silenciosamente: ‘Quais são as poucas coisas preciosas que você se dá ao luxo de guardar no final de sua vida quando você já tem tão pouco?’. Um anel, uma foto ou qualquer outra pequena recordação foi o que ele encontrou constantemente. Marc, de maneira pungente, concluiu que as memórias são tudo o que importa no final.”

Mais informações estão disponíveis no blog do autor: lawsofsimplicity.com