Porque eu deixei a carreira de administração de empresas antes mesmo de começar

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Uma amiga perguntou: “quem é mais fútil? a mãe que banca ou a filha que consome??? QUAIS SÃO OS VALORES DA ATUALIDADE?????”

E eu acrescento:

Quem é mais fútil, a mae ou a filha? Ou os administradores que estudam o comportamento humano e criam as marcas e o valor subjetivo que elas carregam e assim conseguem ganhar rios de dinheiro vendendo coisas que as pessoas não precisam a um alto preço e pagando aos seus empregados salários que não bancam uma vida digna? Quem é mais fútil? A menina que busca status social ostentando um tênis, às cutas do salário da mãe? Ou o empresário, que busca status social ostentando um carro de luxo, às custas de seus empregados e dos consumidores manipulados? Eu tenho pena é da mãe, que por amor e ignorância é explorada pela filha ao mesmo tempo em que, por um salário provavelmente baixo, passa a vida andando de ônibus e limpando casas elegantes nas quais nunca vai morar.

Se quiser ter uma real noção da insanidade da mentalidade rolezinho, veja este vídeo:

Ou mais sobre a reportagem da foto, aqui.

350px-Pharaoh.svgOlhe, na foto da reportagem, a pose da garota. Não é por acaso que ela está segurando o celular como se fosse uma vendedora do aparelho. Só que ela faz isso com naturalidade, e com mais pompa do que um faraó portando as insígnias reais. Me faz lembrar a música dos Engenheiros: “você, que tem ideias tão modernas, é o mesmo homem que vivia nas cavernas”. São símbolos. O cetro representa o poder real, a riqueza palaciana e o pertencimento à descendência dos deuses. O smartphone representa o poder de consumo, a adequação ao padrão estético, e a presença no mundo virtual (tão real quanto o mundo real, já que a ausência no mundo eletrônico implica uma certa insignificância no mundo físico).

Agora, pior do que gastar mal, é ganhar dinheiro levando os outros a fazerem isso. Digo isso porque não é apenas uma questão de dinheiro, é muito mais profundo. A garota não gastou R$ 500,00 para ter um tênis, ela gastou para ser admirada pelos outros. Não é uma questão de conforto, comodidade, qualidade do produto… é uma questão de identidade! Ela não explora a mãe para ter seus pés confortáveis, ela faz isso porque precisa ser alguém. Está no mais profundo da natureza humana buscar afirmação, isto é natural. Todas as pessoas precisam de um pouco de atenção. Mas o nosso mundo moderno (muito além da sociedade do espetáculo descrita por Guy Debord) conseguiu amplificar isso de uma forma absurda. De modo que ela paga 500, não para ter um tênis bonito, mas para ter mais de 500 curtidas em uma foto do facebook (veja lá, ela tem).

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Então, o marketing é uma desumanização, não por fazer as pessoas gastarem mal o seu dinheiro, mas sim por deformar a percepção do ser. Por conseguir convencer às pessoas de que ser é Ter. Por impor a regra de que para existir é preciso ser visto. Agora, é fácil dizer “as empresas apenas apresentam os produtos, as pessoas podem escolher comprar ou não”. (É o argumento que muitos defensores deste sistema perverso utilizam) Não é verdade. As empresas apresentam o produto sim, mas em um ambiente já preparado para que a pessoa tenha que ser muito forte para resistir. Não é que um vendedor te obriga a comprar um produto, mas sim que há toda uma sociedade desenvolvida para fazer você necessitar cada vez mais. Você já ouviu falar de neuromarketing? Não, isto não é teoria da conspiração, é uma tendência que vem crescendo. Novamente cito Engenheiros: “propaganda é a arma do negócio, e em nosso peito bate um alvo muito fácil”.

E isso não atinge apenas pessoas como a menina da reportagem. O jovem de pais abastados também tem sua indumentária necessária para deixar claro a que classe social pertence (será que eu não poderia dizer “casta social”?). E mesmo dentro de sua classe existem os produtos para se diferenciar enquanto indivíduo.

E os empresários sabem disso. Os estudantes de administração sabem disso. Um professor de marketing me disse “as pessoas não compram os produtos, elas compram aquilo que o produto pode lhes dar”. Em outras palavras, a pessoa não compra o tênis, o relógio, a bicicleta… elas compram as curtidas no facebook, o olhar do garoto(a), o respeito da “galera”. As pessoas compram o benefício que o produto proporciona. E este benefício geralmente é a satisfação de uma necessidade criada pelo próprio vendedor. Por exemplo, o novo aparelho eletrônico só lhe dá a sensação de ser moderno e atualizado, porque ele mesmo transforma os seus outros aparelhos em obsoletos. A roupa de marca só lhe dá um ar de altivez porque é cara. E só é desproporcionalmente cara para poder lhe servir este benefício.

Então você me diz: “você está exagerando, as pessoas não são tão superficiais assim”. E eu respondo, sim, infelizmente nós somos a cada dia mais superficiais. Primeiro, este comportamento não é consciente. Nós vivemos em uma sociedade de consumo, nós convivemos com isso e respiramos este clima. O que deveria ser anti-natural, já é tão natural que nós nem percebemos. Este é o nosso paradigma. Alguém já disse “o peixe não percebe que está debaixo da água”, assim também nós estamos mergulhados em um Mercado Consumidor de modo que quase não vemos mais a superfície. (se você não compreendeu a metáfora do peixe, lembre-se de que apesar de você estar a vida inteira em contato com o ar, você só tem consciência dele quando passa um vento frio ou quente) E segundo, infelizmente existem pessoas realmente superficiais, que mesmo tendo consciência da mecânica consumista, a aceitam.

Continua…