Minima Sacramentalia: Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos – Leonardo Boff

0Sacramento. Segundo o dicionário Aurélio: “cada um dos sete sinais sagrados instituídos por Jesus Cristo para distribuir salvação divina àqueles que, recebendo-os, fizeram profissão da fé”. Mas o senhor Aurélio Buarque de Holanda não era um teólogo, a definição dele é uma síntese do entendimento católico de sacramento.

Segundo o catecismo da igreja católica:

Os sete sacramentos são os sinais e os instrumentos pelos quais o Espírito Santo difunde a graça de Cristo, que é a Cabeça, na Igreja, que é seu Corpo. A Igreja contém, portanto, e comunica a graça invisível que ela significa.[1] (grifo meu)

E ainda:

os sacramentos são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais nos é dispensada a vida divina. Os ritos visíveis sob os quais os sacramentos são celebrados significam e realizam as graças próprias de cada sacramento. Produzem fruto naqueles que os recebem com as disposições exigidas.[2] (grifo meu)

Podemos perceber então três características importantes do sacramento católico: é uma instituição de Jesus Cristo, é canal de recebimento da graça divina e é administrado pela “igreja”. Entretanto estes três pontos são facilmente questionáveis, mas vamos por enquanto nos ater a um deles, o primeiro.

A palavra “sacramento” não aparece nenhuma vez nos evangelhos e nem mesmo em qualquer outro livro da Bíblia. A palavra “sacramento” foi palavra escolhida do latim eclesiástico para traduzir a palavra grega mysterion. Ela vem do latim sacramentum, que significa “consagração”, que vem de sacrare, “tornar sagrado”, de sacer, “sagrado, dedicado, santo”.[3] O sacramento católico é, portanto, uma criação religiosa muito posterior ao ministério de Cristo ou ao período apostólico. O próprio catecismo admite isso:

Graças ao Espírito Santo que a conduz à “verdade plena” (Jo 16,13), a Igreja reconheceu pouco a pouco este tesouro recebido de Jesus e precisou sua “dispensação”, tal como o fez com o cânon das Sagradas Escrituras e com a doutrina da fé, qual fiel dispensadora dos mistérios de Deus. Assim, ao longo dos séculos, a Igreja foi discernindo que entre suas celebrações litúrgicas existem sete que são, no sentido próprio da palavra, sacramentos instituídos pelo Senhor.[4]

No século XVI os reformadores fizeram uma grande “limpeza” na teologia, tirando tudo o que não tivesse embasamento bíblico. Ou, pelo menos, quase tudo. Algumas coisas ficaram – era de se esperar – pois eles eram filhos da igreja católica e, apesar de protestantes, carregavam uma pesada herança cultural “romana”. Dos sete sacramentos católicos sobraram apenas dois, o batismo e a ceia. Mas continuou a mesma ideia de “sacramento”, apenas de uma forma mais harmonizada com a teologia protestante. Continuou havendo sacramento, e este continuou sendo ordenança de Cristo, meio de graça[5] e ofício da “igreja”.

É claro que houve quem desmistificou totalmente os sacramentos, como Zwuinglio, que via a Ceia apenas como memorial. Mas a mentalidade de que os sacramentos possuem “algo mágico”, algo de “mais sagrado”, a inda é muito forte no imaginário popular. Então temos hoje um grande espectro de interpretações do sacramento: desde a católica, que dá importância fundamental aos ritos sacramentais, até a mais libertária, que nega a existência de sacramentos, como a dos quakers, por exemplo.

Neste contexto é que devemos analisar a proposta do Leonardo Boff de interpretação do sacramento. O livro Minima Sacramentalia parece ser um grande esforço de harmonizar duas visões aparentemente opostas. Por um lado ele demonstra grande inclinação para a desmitologização do sacramento, com ênfase no aspecto humano do sacramento, como memorial, um símbolo, um arquétipo, etc. Em outras palavras, uma interpretação mais psicológica.

Mas ele era um sacerdote católico, e não poderia ficar somente nesta primeira interpretação. Parece que foi por isso que dedicou a segunda metade do seu livro a justificar a dogmática católica do sacramento, usando os conceitos por ele desenvolvidos na primeira metade. Uma das evidências mais gritantes disso é que depois de uma análise muito racional da importância psicológica dos sacramentos, o nosso amigo franciscano nos surpreende com uma numerologia arbitrária para justificar a existência de sete sacramentos:

O numero sete deve ser entendido simbolicamente. Não como uma soma de 1+1+1+1, etc., até sete, mas como resultado de 3+4. A psicologia das profundezas, o estruturalismo, mas antes a Bíblia e a Tradição, nos ensinam que os números 3 e 4 somados formam o símbolo específico da totalidade de uma pluralidade ordenada.[6]

Mas tudo bem, é compreensível e talvez até perdoável. Assim como o caso dos reformadores, este mostra como é difícil fazer uma reforma na teologia sem carregar pré-conceitos adquiridos ao longo do tempo e sem se ver amarrado por compromissos institucionais. Além do mais, o cuidado dele em não contrariar as interpretações oficiais da igreja (que no fim apenas adiou o inevitável), não nos impede de perceber o que ele realmente pensava.

E o que o Leonardo quis demonstrar em Minima Sacramentalia é muito simples. Para ele o sacramento é um símbolo. Mas não um símbolo comum, e sim um símbolo que dá um significado especial às coisas comuns. E mais, símbolo que une a realidade humana (comum), com uma realidade superior (divina, espiritual, etc.) Em suas próprias palavras: O sacramento é uma parte do mundo (in-manente) mas que traz em si um outro Mundo (trans-cendente), Deus[7]. Mas por ser um símbolo, a essência do sacramento não está no rito ou objeto, mas sim no olhar do indivíduo. Então qualquer coisa pode se tornar sacramento. Onde quer que alguém possa “ver Deus”, ali há um sacramento.

Por isso torna-se tão óbvio que a interpretação do Boff é oposta ao pensamento católico tradicional, o qual ele logo após próprio tenta (ou finge?) justificar. Porque no catolicismo o sacramento é um sacramentum (consagração) e consequentemente carrega em si a contradição sagrado/profano. O sacramento católico eleva-se a tal nível de valor sacro que forçosamente rebaixa todas as outras coisas à existência profana. Por outro lado, o sacramento proposto por este teólogo é aquele que sacraliza a experiência humana. É o que dá sentido especial às coisas comuns, é o que permite encontrar Deus, o transcendente, o santo, no mundo material ordinário:

O cristianismo se entende a si mesmo não, primeiramente, como um sistema arquitetônico de verdades salvíficas. Mas como a comunicação da Vida divina para dentro do mundo. O mundo, as coisas e dos homens vêm penetrados da seiva generosa de Deus. As coisas são portadoras de salvação e de um Mistério. Por isso elas são sacramentais. A relutância do cristão contra o materialismo marxista vem, em grande parte, desta compreensão diferente da matéria. Esta não é só objeto de manipulação e da posse do homem. É portadora de Deus e lugar do encontro de salvação. A matéria é sacramental.[8]

Será que isso é uma graça exagerada? Será que esta interpretação é uma profanação do sacramento? Na perspectiva católica sim. Mas na consciência do Novo Testamento e do evangelho de Jesus talvez não. Porque o sacramento, como o entendemos hoje, não foi invenção de Jesus Cristo. Ele sim, nos deixou ordens, como o batismo, a ceia, a evangelização, o serviço, entre tantas outras. Mas quem transformou isso em ritual, e depois em dogma teológico foi a igreja.

Vejamos o exemplo da “santa ceia”. Jesus apenas (1) repartiu pão e vinho, afirmando que estes simbolizavam seu corpo e sangue e a nova aliança, (2) revelou que não tornaria a beber vinho até o momento da concretização do Reino e (3) completou dizendo “fazei isso em memória de mim”. Os relatos nos evangelhos sinóticos são sucintos, não passam de 10 versos ao todo. Há ainda uma quarta e última afirmação de Jesus que foi relatada por Paulo, (4) “porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha”.

Como é que a partir destas quatro simples afirmações foram construídos tantos dogmas supersticiosos? Como é que este memorial/anúncio (nas próprias palavras usadas pelo Senhor) foi transformado em “meio de graça”, “ordenança”, “sinal visível da graça invisível”, etc., e até mesmo mecanismo de salvação?

O fato de o apóstolo Paulo ter repreendido os coríntios que praticavam a ceia como “comilança” não nos deveria levar a outro extremo de elevar a ceia a um patamar de ritual sacrossanto, como se esta atividade cristã fosse mais sagrada que as outras. O próprio título “santa ceia” está em nossas bíblias apenas nas notas dos editores, refletindo a concepção teológica deles, mas não sai da boca de Jesus, de Paulo, ou de qualquer autor das Escrituras Sagradas.

E mais: na mesma ocasião em que Jesus ceou com seus discípulos e disse “fazei isso”, ele também lavou os pés dos mesmos e igualmente concluiu dizendo “também vós deveis…” Porque um virou sacramento e o outro não? Porque um é interpretado figuradamente e livremente, no sentido se servir um ao outro, e o outro é interpretado rigidamente e literalmente como o ato de comer pão e vinho? Porque um foi transformado em ritual, e outro ficou como mais um destes ensinamentos de Jesus que no fundo ninguém realmente pratica?

Tudo isso me leva a crer que (1) o Sacramento, como o entendemos hoje, é uma criação da religião cristã, talvez salutar no seu início – como demonstrado na explanação do Leonardo Boff sobre o sacramento na igreja latina primitiva[9] – mas que foi aos poucos sendo transformada em artifício de manipulação e centralização de poder pelo clero; (2) a graça de Deus é livre pra ser transmitida por/para onde/que/quem ele deseja, e não depende de ofício sacerdotal ou ritual sagrado (3) todas as ordens de Jesus para nós são ordenanças, e precisamos cumpri-las sem fazer distinção valor sacro, seja o memorial da ceia ou a prática do servir, seja o batismo ou a pregação do evangelho.

Quanto ao sacramento descrito pelo Leonardo Boff (apenas na primeira metade do livro), acredito que começa a fazer sentido quando entendemos que o conceito de Sacramento é invenção humana e não divina. Porque se não fosse assim, este sacramento seria sacrilégio. Seria uma tentativa de imputar a Deus obras que não são dele. Afinal, como poderíamos dizer que uma caneca velha é um “sinal sagrado instituído por Jesus Cristo para distribuir salvação divina…”? Mas se entendermos sacramento como um símbolo humano, um objeto que para uma determinada pessoa ganha um significado maior, que lhe remete a realidades superiores, transcendentes… então podemos perceber que até mesmo para o Senhor Jesus os pássaros e lírios do campo eram “sacramentos” do amor de divino.


[1] Catecismo da igreja católica §774

[2] Idem § 1131

[6] P. 57

[7] P. 35

[8] P. 12

[9] “Na Igreja Latina primitiva a palavra sacramentum significava originalmente esta conversão do homem para Deus; significava exatamente o compromisso sagrado de viver coerentemente com as exigências da fé cristã até ao martírio. Depois, a palavra sacramentum era usada para o rito que expressava o compromisso cristão com a mensagem libertadora de Jesus Cristo, como o batismo, a eucaristia, o matrimônio, etc.” p.80

Image

Image

Image

Image

Image