Ágora (Alexandria), o filme.

agora_ver2O filme Ágora, no Brasil Alexandria, conta a história da filósofa Hipátia, relacionando-a com os eventos sociais e políticos que ocorreram na cidade e no império naquele período.

Aviso: spoiler

Hipátia viveu em Alexandria, no Egito, entre 355 e 514, dentro do período em que o Egito fez parte do império romano. A estória narrada no filme inicia em 391. Nesta época o cristianismo, que até pouco tempo antes era proibido, já era um culto permitido e até mesmo favorecido pelo imperador.

O pano de fundo é a disputa entre os cristãos e os pagãos e judeus. Aqueles que antes tinham sido brutalmente perseguidos por séculos agora praticavam sua religião publicamente. E mais do que isso, pregavam contra as outras religiões na praça pública – a ágora – e zombavam dos deuses pagãos. Isso despertou a fúria dos seguidores da religião greco-romana, que partiram para um massacre aos que estavam na ágora, mas estes foram surpreendidos pela inesperada quantidade de cristãos que surgiram de todas as partes para se defenderem e contra-atacar. 

É importante perceber que o filme retrata a divisão da sociedade entre cristãos e não cristãos. Mas esta divisão não é uniforme. Vemos na biblioteca muitos adeptos da cultura greco-romana e sua filosofia e religião e apenas alguns cristãos ali. Por outro lado, o cristianismo é a religião da massa, dos pobres, dos escravos. Estes são retratados como incultos, baderneiros, ignorantes e manipuláveis pelos seus líderes. Quando o grupo dos não cristãos percebe que sua ofensiva fracassou, eles se refugiam na biblioteca, a qual é sitiada por uma multidão de cristãos enfurecidos. E quando o imperador dá ordens para que os que estão na biblioteca deixem-na, em troca do perdão por terem iniciado a balburdia, os cristãos a invadem destruindo tudo o que há lá dentro, desde estátuas de deuses até os rolos de livros.

Os anos passam e Hipátia continua estudando, ensinando, e preservando o pouco material que teve tempo de salvar da biblioteca. Ela não se envolve nas disputas religiosas e, apesar de não ser cristã, também não é devota dos deuses greco-romanos. Também decide nunca se casar, pois a sua única devoção é a filosofia. Mas os seus alunos tomam importantes cargos políticos na sociedade, e ela, por sua sabedoria, tem muita influência sobre eles. Orestes, que sempre a amara sem ser correspondido, converte-se e se torna prefeito da cidade. Sinésio, que já era cristão, se torna bispo de outra província. Enquanto isso Alexandria o bispado da cidade é assumido por Cirilo, o qual é retratado como um homem poderoso, orgulhoso e controlador. O bispo tem sob seu controle os parabolani, uma horda de monges briguentos, aos quais incita contra os judeus e os pagãos. Com isso consegue expulsar os judeus da cidade, e depois incentivar o assassinato de Hipátia. Orestes foge da cidade, Cirilo assume um maior poder, e a religião politeísta é definitivamente proibida.

O filme é um tanto cuidadoso quanto à historicidade. Vários dos personagens são reais – como Hipátia, Cirilo, Orestes e Sinésio – embora os detalhes menores sejam preenchidos pela ficção. Também vários fatos aconteceram realmente, como a expulsão dos judeus, a proibição do culto pagão pelo imperador Teodósio I e a destruição da biblioteca. Este último fato, entretanto, é bem controverso. Não há consenso entre os historiadores sobre o responsável e nem mesmo sobre a real época da destruição. Há uma teoria que indica ter sido destruída no primeiro século, devido a um incêndio acidental causado pelas tropas de Cesar; outra teoria baseia-se em fontes árabes do século XIII, que acusam um sultão de ter ordenado o incêndio em 642; e há ainda algumas criticas à história tradicional, que atribuem a responsabilidade ao patriarca de Alexandria, o bispo Cirilo. Esta última teoria está mais próxima da retratada no filme.

Ágora parece ser um pouco tendencioso em detrimento do cristianismo. Não só pelo episódio do incêndio, mas por retratar os cristãos da pior forma possível. Por um lado isso parece injusto, mas por outro lado, apesar de tudo, é uma verdade que precisa ser mostrada. Por ser muitas vezes contada por cristãos, a história chega até nós ocultando os fatos vergonhosos do cristianismo. É verdade que muitos dos que se dizem cristãos não são, e muitos dos que se convertem não têm um real encontro com Deus, mas sim uma simples associação ao grupo dito cristão. Essas pessoas acabam corrompendo a igreja e levando ela ser e fazer o oposto do propósito original de Jesus. Isso é perfeitamente retratado no filme quando os parabolani estavam levando os corpos dos judeus que tinham matado para serem queimados. Um deles pergunta algo como: “será que não estamos fazendo errado, será que não deveríamos perdoar eles? Jesus os perdoou na cruz…”.  E os seus companheiros respondem algo assim: “mas Jesus era Jesus, como você ousa se comparar a Deus? Estes judeus morreram nas nossas mãos porque Deus quis assim”.

Outra cena marcante é quando o bispo Cirilo usa o texto de Paulo aos efésios, em que diz que a mulher deve aprender em silêncio, para forçar o prefeito Orestes a se voltar contra Hipátia. Usando a Bíblia como um totem e interpretando o texto da sua maneira ele consegue submeter a si todas as autoridades, pois ninguém ousa contrariar a palavra de Deus e ser considerado herege. Assim Hipátia é condenada por ateísmo e bruxaria.

Por último, o filme parece querer passar a lição de que a ignorância tem um custo muito alto e para toda a humanidade. Isso é obviamente demonstrado na destruição da biblioteca, mas também nas vidas que se perdem em disputas banais, na fácil manipulação da população por líderes astutos, na falta de diálogo e respeito entre pessoas de crenças diferentes, etc. Esta mensagem é válida para todas as épocas. Embora a estória do filme se passe em épocas remotas, ainda hoje o mundo está cheio de fanatismo religioso, arrogância científica e disputas por poder. Um exemplo isso são os Manuscritos de Timbuktu, em Mali, um tesouro arqueológico e cultural que sobreviveu por séculos e neste exato momento correm perigo de serem perdidos para sempre por causa de disputas religiosas e políticas. Será que a história vai se repetir novamente?

 

Fontes:

Sobre a destruição da biblioteca há um artigo muito bom na Wikipédia, com muitas referências para iniciar uma pesquisa mais aprofundada:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Destrui%C3%A7%C3%A3o_da_Biblioteca_de_Alexandria

Sobre os manuscritos de Timbuktu:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuscritos_de_Timbuktu

http://noticias.terra.com.br/mundo/africa/timbuktu-e-cercada-apos-manuscritos-do-sec-xiii-serem-queimados,5c0c0c5263e7c310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html