Influências gnósticas no filme “A Última Tentação de Cristo”

SINOPSE

A ultima     A Última Tentação de Cristo é um filme estadunidense de 1988, baseado no livro homônimo publicado em 1951 pelo escritor grego Níkos Kazantzákis. A obra conta a história de Jesus – não baseada nos evangelhos – desde os momentos anteriores ao início do seu ministério até a sua morte na cruz, passando por um período em que ele imagina como teria sido sua vida se não tivesse que se sacrificar pela humanidade. É fácil perceber que o personagem Jesus é bem diferente da pessoa descrita nos evangelhos. O drama cinematográfico traz várias variantes sobre a história e a pessoa de Jesus. Aqui será analisada a influência do pensamento gnóstico na trama do filme. Mas antes disso, é importante esclarecer um pouco o que é o gnosticismo.

 

GNOSTICISMO

     É difícil determinar com precisão o surgimento do gnosticismo, contudo temos evidências de que ele já estava presente no período do início da igreja cristã, e talvez mesmo antes. Também não é fácil defini-lo, pois não se trata de uma doutrina única e também não se organizou institucionalmente, de modo que há diferentes correntes de pensamento gnóstico. Entretanto podemos ressaltar algumas características principais.

          Roger Olson, em História da Teologia Cristã*, elenca cinco características comuns às várias correntes do gnosticismo. Segundo ele, o pensamento gnóstico marca-se pela crença em (1) um só Deus, completamente transcendente, espiritual e afastado do universo caído e material; (2) os seres humanos como centelhas da mesma substância espiritual de Deus, porém aprisionados em corpos materiais; (3) a “queda” como equivalente ao aprisionamento na matéria, ou seja, da existência puramente espiritual para uma em que o espírito está preso no mundo material; (4) a salvação como o desprendimento da matéria, através do conhecimento, autoconhecimento, e por fim a morte e o retorno da alma para Deus; e (5) Jesus como alguém especial, por ser o veículo humano usado por Cristo, um mensageiro celestial.

      A relação entre gnosticismo e cristianismo é complicada. O cristianismo não comporta os pressupostos gnósticos, mas por outro lado, os gnósticos costumam se identificar como cristãos. Há muitos não cristãos que valorizam a pessoa de Jesus, como por exemplo os muçulmanos, mas os gnósticos vão além. Eles dão outra interpretação à sua pessoa. Como consideram a matéria má, eles não conseguem aceitar que Jesus seja Deus, ou que Deus tenha se encarnado (a mesma coisa dita de outra forma). Para eles, Jesus foi um homem, digamos, “iluminado”. Um homem em quem Cristo se manifestou. E cristo está mais para um espírito que veio ao mundo ensinar aos homens como retornar a Deus, à condição pura, espiritual, anterior à queda. Segundo uma corrente, Cristo entrou em Jesus no batismo e o deixou pouco antes da morte. Outra corrente afirma que Jesus Cristo era um ser espiritual, que apenas parecia ser material para se relacionar com os homens, ele pareceu sofrer, pareceu morrer.

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     Outro problema que gerou conflitos nos primeiros séculos, é que os gnósticos geralmente alegavam serem transmissores de uma tradição secreta, de uma doutrina proveniente dos próprios apóstolos. É como se dissessem que o ensinamento básico de Jesus foi transmitido às multidões, mas algo mais profundo, mais importante e valioso, foi transmitido a poucos capazes de compreender, e eles teriam tido acesso a este conhecimento, esta gnosis. Como se o conhecimento que os cristãos têm de cristo fosse mera ingenuidade, enquanto a real compreensão de Cristo pertencesse a eles.

         Outro aspecto essencial do gnosticismo é o ascetismo e licenciosidade. Por verem a matéria como algo mal, os gnósticos se dividiam em duas posturas totalmente opostas com relação ao corpo. Alguns adotavam um ascetismo rígido, como forma de enfraquecer o corpo e fortalecer o espírito. Outros entendiam que devido à separação entre corpo e espírito eles podiam fazer o que quisessem com o corpo, pois isso nada afetaria o espírito.

UM OLHAR GERAL SOBRE A OBRA

          A primeira observação importante sobre o filme “A última tentação de Cristo” é a de que o Cristo ali representado não é o Cristo dos evangelhos. E isto dispensa demonstração, pois a própria introdução do filme afirma claramente: “Este filme não se baseia nos Evangelhos, mas sim nesta exploração ficcional do eterno conflito espiritual”, se referindo ao livro homônimo no qual se baseia o filme.

          A segunda observação importante é que o tema central do filme não é exatamente a pessoa de Jesus, mas sim o conflito entre carne e espírito. Jesus parece ser o personagem escolhido para representar de forma extrema este conflito, por ter sido ele o homem que teoricamente esteve no olho deste furacão. Não é esta uma função da arte (?), retratar de forma exageradamente clara sentimentos sutis que habitam a alma do homem comum? Novamente o desenvolvimento da obra não pode nos distrair da contextualização dada já na introdução, pelas palavras de Kazantzakis:

“A natureza dupla de Cristo – a ânsia tão humana, tão sobre-humana, do homem alcançar Deus… sempre foi um profundo mistério para mim. A principal angústia e fonte das minhas alegrias e tristezas desde a juventude, tem sido a interminável e implacável batalha entre o espírito e a carne… e a minha alma é a arena onde estes dois exércitos se encontram e combatem.”

E a terceira observação importante é a de que este filme não se desenvolve inteiramente sobre a ótica gnóstica. Por isso fica difícil analisá-lo. Fazendo uma análise do discurso, não há margem para classificar o autor como um adepto do gnosticismo. Então, se formos analisar as influências filosóficas sob a obra, vamos encontrar uma grande “mistura”. Mas apesar disso, é possível sim reconhecer a presença de muitos pressupostos gnósticos nos detalhes da trama.

OS DETALHES

última-tentação-de-cristo        O primeiro detalhe é o personagem de Jesus. Fica claro que no filme ele não é Deus. É um homem cheio de perturbações, dúvidas, confuso, reticente, buscando encontrar significado para a sua existência. Muito diferente do Jesus dos evangelhos – que sabe quem é, sabe sua missão e tem plena comunhão com Deus – o Jesus vai descobrindo aos poucos a sua vocação. Ele também não é o Santo de Israel, mas sim um homem comum, pois ele mesmo admite ser pecador, pede desculpas, sente culpa, muda de opinião algumas vezes. Uma das maiores contradições históricas com os evangelhos é a de que, no filme, Jesus, não sabendo se é o ou não o messias, vai a João Batista para perguntar sobre isso. Ver Jesus como um homem e não como Deus é uma característica fundamental dos gnósticos. No filme, não fica muito claro se Jesus é apenas um homem escolhido por Deus para exercer a missão de Cristo, ou se ele é encarnado pelo cristo, como em uma das concepções gnósticas, ou se ele é “um pouco Deus”. Afinal, a própria introdução do filme faz alusão à dupla natureza de Cristo. Mas pode ser que esta dupla natureza não seja a mesma da concepção cristã – Jesus sendo totalmente Deus e totalmente homem – mas simplesmente a dualidade “espírito-materia”. O próprio personagem é contraditório. Em um momento ele confessa a tentação ao colega de monastério “Lúcifer diz que sou Deus”, mais adiante ele brada para o povo “eu sou Deus”.

         Outro detalhe presente no filme comum ao pensamento gnóstico é a oposição entre espírito e matéria. Isso fica muito claro na oração feita durante o sepultamento do mestre do monastério: “A alma do mestre foi para o céu. A obra do seu corpo está terminada. Caminhou sob o sol e sob a lua, sobre a areia e sobre a pedra, pecou, sentiu dor, ansiou pelo céu. Encomendamos seus restos mortais ao nosso Deus. Carne, o mestre não precisa mais de ti. Derrete!”. Isso mostra que na concepção deles não há ressurreição do corpo. Muito pelo contrário, a morte é vista como uma libertação do espírito em relação ao corpo. Podemos ver a mesma ideia em uma fala de Jesus na ocasião de um casamento: “Como você acha que é o céu? É como um casamento. Deus é o noivo e o espírito do homem a noiva (…)”.

        Também podemos ver um pouco do pensamento gnóstico no momento em que Jesus volta do deserto para encontrar seus discípulos e iniciar o seu ministério. No seu discurso inflamado ele afirma: Deus está dentro de nós o diabo está fora de nós, no mundo à nossa volta”. Embora esta afirmação não esteja errada do ponto de vista cristão, no contexto em que o personagem do filme diz, dá a entender que “Deus em nós” significa que os humanos são parte de Deus, e que “o diabo fora de nós” significa o mundo exterior. E isso está de acordo com a ideia gnóstica de que os seres humanos são centelhas divinas e que o mundo material é mal, uma prisão para o espírito.

      Também podemos considerar um comportamento gnóstico o ascetismo rígido praticado pelo personagem Jesus. Podemos ver isso ao longo de todo o filme, mas especialmente no momento em que veste um cilício para carregar a cruz que fabricara para os romanos e no monastério do deserto.

last-temptation-of-christ_judas        Por último há também a questão de Judas, que no filme é pintado não como um traidor, mas sim como o discípulo mais leal de Jesus. Esta versão da história bate com aquela descrita no apócrifo Evangelho de Judas, atribuído a autores gnósticos do século II, combatido pelos pais apostólicos e redescoberto pela arqueologia nos anos 70. Segundo esta versão gnóstica, Judas não teria traído Jesus, mas apenas cumprido uma ordem do seu mestre para entregá-lo aos perseguidores.

CONCLUSÃO

890_17     Embora não seja totalmente baseado em ideias gnósticas, podemos ver influências desta linha de pensamento. Especialmente na oposição entre espírito e matéria, que é uma confusão muito comum dentro do cristianismo. A influência dos gnósticos foi tão forte na cristandade que até hoje podemos ver entre os cristãos esta ideia dicotomista, que não é bíblica. É uma influência sutil, que às vezes passa desapercebida, mas as vezes fica muito evidente, como é o caso deste filme.


* OLSON, Roger E. História da teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Vida, 2001.