A Neurose da Religião – Tom Hovestol (resumo)

Guias cegos

Em, A Neurose da Religião, Tom Hovestol  inicia o livro contando a sua experiência pessoal com o exemplo dos fariseus na bíblia. Ele conta que certa vez, ao ler o evangelho de Mateus procurando algum tema para uma palestra, o que mais lhe chamou a atenção foi o fato dos fariseus serem tão citados neste livro. Neste dia ele fez um questionamento a si mesmo. Consciente de que a Bíblia comunica a sua mensagem não apenas através de discursos, mas também de personagens nos quais podemos nos espelhar; e intrigado com o fato do evangelista Mateus ter dedicado tanto espaço nas páginas de seu livro para descrever essas figuras; o autor se pergunta: “será que alguma vez eu me comparo aos fariseus?”. A resposta é fácil, é claro que ele não se comparava a essa classe de pessoas. Nenhum cristão gostaria de ser comparado com um fariseu. Mas esse é o problema levantado pelo autor. Nós rechaçamos tanto esses personagens do Novo Testamento, que não ousamos nos colocar no lugar deles, ou tomar para nós as palavras que Jesus dirigiu a esses religiosos. Assim não estaríamos cometendo o mesmo erro que eles? O erro de já nos acharmos suficientemente justos?

Uma caricatura comum

Ao longo do tempo os leitores do Novo Testamento, por não terem conhecimento da cultura judaica, foram criando uma imagem errada dos fariseus. Concentraram-se em todas as suas características ruins (muito bem descritas nos evangelhos) e esqueceram as suas boas qualidades. Com isso, deixaram de vê-los como seres humanos para vê-los como monstros, vilões, etc. Ou seja, uma caricatura: uma visão exageradamente focada nos defeitos de uma pessoa. E vendo-os como personificação do mau-caráter, nós cristãos perdemos a oportunidade de nos colocarmos no lugar deles e aprendermos com as palavras que o Mestre lhes dirigiu.

Estudos recentes têm trazido novas perspectivas sobre os fariseus. É importante sabermos que eles eram um grupo muito respeitado em sua época. Eles eram o exemplo religioso na sociedade judia daqueles tempos. O autor inclusive encontra semelhanças entre as raízes históricas dos fariseus e a reforma protestante. Isso porque eles surgiram em uma época de crescente secularismo, reclamando a identidade dos judeus como povo da Palavra de Deus. Estes puristas em relação às Escrituras foram os responsáveis pelo surgimento das “casas de estudo”, que nós conhecemos como “sinagogas”. Eles também afirmavam a necessidade de todo judeu, não somente sacerdotes e escribas, de conhecer e praticar a lei. E também protestavam contra a corrupção da religião e contra o helenismo, a cultura que estava distorcendo os valores da cultura judia fundamentada na Palavra.

A conduta religiosa dos fariseus era exemplar: a sua doutrina teológica era correta, seu conhecimento das escrituras inigualável, o cumprimento da lei era meticuloso, buscavam ter uma vida pura e justa, se dedicavam à adoração, se empenhavam na vida de oração, valorizavam a comunhão, eram comprometidos nos dízimos, esmolas e ofertas, e ainda não mediam esforços para converter mais pessoas à sua fé. Nós, cristãos modernos, não conseguimos ver essas boas qualidades dos fariseus talvez por falta de conhecimento, mas talvez também por termos um preconceito muito forte sobre eles.

Sempre temos em mente o estereótipo que criamos para eles, porque é mais fácil tratá-los assim, de forma simplista, do que considerá-los com seres humanos complexos (como todos os seres humanos são complexos) com virtudes e defeitos. É mais fácil vê-los como “pessoas a serem evitadas” do que tentar entender onde foi que eles acertaram e onde foi que eles erraram, para assim aprendermos com o seu exemplo.

Entretanto, pelas características descritas acima podemos ver que eles eram religiosos exemplares. Vendo dessa forma podemos até dizer que eles eram o tipo de fiel que todo pastor quer ter em sua igreja. Então onde foi que eles erraram? Porque receberam tão duras críticas de Jesus? Será que Jesus os odiava, assim como nós os odiamos? Ou Jesus os amava e por isso se dedicou em tentar corrigi-los?

Nossos amigos, os fariseus

Antes de passar a analisar os erros dos fariseus o autor apresenta dez motivos pelos quais devemos abandonar a caricatura dos fariseus e formarmos um retrato apurado deste grupo de religiosos.

Em primeiro lugar, “os fariseus estão vivos e passam bem”. Com isso o autor não está querendo dizer que aquele grupo de fariseus da época de Jesus se perpetuou até hoje. Não, o que ele está dizendo é que a nossa sociedade hoje apresenta as mesmas características da sociedade daquela época. Como Salomão já tinha dito muito antes “não há nada de novo debaixo do sol”, podemos ver que as dinâmicas psicológicas e sociais do cenário religioso podem mudar de aparência, mas continuam com a mesma essência. Segundo o autor, os radicais direita na época de Jesus eram os Zelotes. Havia também, como hoje, os isolacionistas, que eram os essênios. Os essênios são comparados aos liberais de hoje. E por fim, os fariseus se assemelham muito aos cristãos ortodoxos de hoje.

Segundo, “os fariseus ganham o prêmio de melhores atores coadjuvantes dos evangelhos”. Não é a toa que esses personagens aparecem com tanta frequência nos evangelhos. Se toda palavra de Deus é inspirada, então eles estão lá para nos ensinar alguma coisa, e temos que estar atentos a isso.

Terceiro, “compreender os fariseus nos ajuda a lidar de forma acurada com as escrituras”. O autor exemplifica isso com duas palavras, a do bom samaritano e a do filho pródigo. A primeira é geralmente contada para crianças para ensinar o amor ao próximo, o que não está errado, mas esquecemos que essa parábola foi contada por Jesus a um doutor da lei. A principal mensagem da parábola é sobre o erro de justificar-se a si mesmo. A segunda parábola, a do filho pródigo, geralmente é contada para exemplificar o grande amor de Deus em aceitar o retorno do filho perdido. O que também não é errado, mas comentamos muito sobre as atitudes do filho pródigo e do pai, e esquecemos aprender com a atitude do filho mais velho. E no meio eclesiástico a maioria de nós se assemelha mas ao filho mais velho, ao fariseu; que sempre teve uma conduta correta (religiosa) mas nunca teve um relacionamento verdadeiro com o Pai.

Quarto, “pessoas mal orientadas podem ser moralmente boas”. Muitas vezes temos a ideia de que aqueles que crêem na verdade de cristo são sempre pessoas boas, e em contrapartida, os que não crêem são pessoas más. Mas o que vemos na prática não é isso. Ficamos surpresos ao ver com frequência fiéis de outras religiões, adeptos de seitas ou até mesmo ateus fazendo caridade, sendo honestos, tendo uma vida saudável, etc. E ao mesmo tempo ficamos escandalizados ao vermos irmãos da igreja dando maus exemplos. O fato é que nem sempre o conteúdo da crença tem relação direta com o comportamento das pessoas. Uma boa religião não produz necessariamente pessoas boas, e uma má religião também não produz necessariamente pessoas más. Os cristãos não são as únicas pessoas boas do mundo. Pessoas podem ser boas e estarem crendo na coisa errada. Da mesma forma, nem todos os cristãos são bons.

Quinto, “a religião que funciona, realmente funciona”. A religião pode até modelar comportamentos, e produzir uma aparente moralidade, mas não pode produzir pessoas “boas”. Pode até produzir um comportamento justo, mas não um coração justo. O sistema religioso dos fariseus era muito eficiente em modelar o comportamento das pessoas, mas não era capaz de levar as pessoas a voltarem o coração a Deus.

Sexto, “compreender os fariseus ajuda os pastores a sobreviver”. Todo pastor se defrontará com o farisaísmo. Um pastor armado com teologia, exegese grega e hebraica, técnicas de exposição da palavra e teologia pastoral, mas ainda sem consciência da infiltração do farisaísmo, está perto do desastre. Os maiores inimigos de Deus raramente são as pessoas “mundanas”, mas geralmente são as pessoas religiosas, as pessoas bem intencionadas que aparentam estar corretas, mas na verdade estão no caminho errado. Reconhecer as sutis armadilhas farisaísmo em si mesmo e na sua igreja ajudará o pastor a não ter o mesmo fim que tiveram os fariseus descritos no novo testamento.

Sétimo, “os fariseus sugerem uma nova estratégia evangelística: encontrar o perdido e perder o encontrado”. Temos que nos esforçar para resgatar os que estão espiritualmente perdidos, mas também ajudar os religiosos a perceberem que talvez eles também não estejam tão “encontrados” como imaginam. Jesus sabia que o farisaísmo de sua época produzia um falso senso de segurança eterna. Por isso em vários diálogos com fariseus de grande respeito (como Nicodemos, por exemplo) Jesus os surpreendeu insinuando que eles ainda não estavam no reino de Deus.

Oitavo, “os fariseus nos mostram como recuperar as pessoas desiludidas que estão fora da igreja”. Muitas pessoas estão abandonando a igreja por se decepcionarem com o que acontece ali dentro. Outras estão desgostosas da religião, anseiam por uma experiência mais relevante. É fundamental entendermos que a religião, o farisaísmo, é algo endêmico, sempre estará tentando se infiltrar na igreja. E precisamos trabalhar sempre para evitar isso, se não o fizermos vamos estar cada vez mais perdendo pessoas e dando um mal testemunho para o mundo.

Nono, “os fariseus podem ajudar os pais de ‘bons filhos’ a reconhecer a rebelião passiva”. Os pais cristãos se esforçam muito para educar os seus filhos na igreja, para serem pessoas corretas. E quando um filho se rebela, abandona a fé, vai “viver no mundo”, todos se preocupam e tentam resgatá-lo. Entretanto, os pais ignoram a fé doente que pode estar escondida dentro do filho obediente. Muitos continuam participando da igreja, mantendo a moralidade, mas não vivem em comunhão com Deus. E estes estão igualmente perdidos. É o que mostra a parábola do filho pródigo, um filho se desviou, foi traumatizado pelas consequências da sua ignorância e voltou arrependido. Mas e o outro filho que sempre esteve ali presente, fisicamente, mas nunca esteve verdadeiramente presente em comunhão com o pai, ao ponto de não conseguir se alegrar com a volta de seu irmão? Talvez seja uma situação pior, pois o que se desvia se sente desconfortável e culpado pelo seu pecado. Mas o que está perdido dentro de casa não consegue enxergar o próprio estado, pois aparentemente não está nada errado. Isso é o que os fariseus ensinam com seu exemplo, eles eram o povo de Deus, os guardiões da lei, mas estavam mais perdidos que os gentios.

Décimo, “os fariseus somos nós”. Os fariseus fornecem um dos melhores espelhos que a Bíblia nos apresenta para que vejamos ali o nosso “eu” religioso exatamente da forma que somos. Se compreendermos qual era o grande pecado dos fariseus, tão severamente exposto por Jesus, então compreenderemos porque eles não foram capazes de aceitar a repreensão de Jesus. E se compreendermos qual era a fonte dessa cegueira dos fariseus, perceberemos que essa é a mesma cegueira que nos impede de admitirmos que nós também somos fariseus, e que as repreensões dirigidas a eles se aplicam muito bem ao nosso comportamento religioso.

Quando a correção leva ao erro

Somos cegos para a maldade que habita em nós. Nós podemos até acreditar no conceito teológico da depravação, mas é muito difícil colocar isso em prática em nossa vida. A falha fatal dos fariseus é o fato de que se acham extremamente justos. Estavam cegos para a própria falibilidade. E quando Jesus apontou os pecados os seus pecados eles ficaram ofendidos. E nós, quando lemos nos evangelhos as exortações de Jesus contra o farisaísmo nós preferimos pensar que isso não se refere a nós.

Mas o que nos deixa assim tão cegos? Vários fatores contribuem para nossa cegueira. A sociedade nos cega: quando nós evangélicos nos comparamos ao resto da sociedade e percebemos que temos uma moral mais elevada ou uma preocupação social maior, corremos o risco de nos acharmos justos. A própria moralidade nos cega: podemos ser moralmente corretos em um nível superficial e assim esconder dos outros (e de nós mesmos!) a depravação que está no coração. A religião nos cega: quando alcançamos êxito no sistema religioso tendemos a ter a sensação de já sermos justos. Porque atender as exigências de um sistema religioso, que recompensa o bom comportamento, é muito mais fácil do que atender as exigências de Deus, que julga as verdadeiras intenções do coração. O conhecimento nos cega: o profundo conhecimento bíblico pode nos dar a impressão de que já conhecemos a palavra de Deus e o próprio Deus. Mas essa relação não é direta. E os fariseus são o melhor exemplo disso. Eles tinham o maior conhecimento jamais visto das Escrituras, mas não conseguiram perceber que Jesus era o Cristo que as Escrituras anunciavam.

Infelizmente o “achar-se justo” é um erro muito sutil e difícil de ser percebido em nós. Paradoxalmente, toda a sociedade reprova esse tipo de comportamento. Ninguém gosta de fariseus, ao mesmo tempo em que todos o são e não conseguem admitir. Entretanto á alguns sinais de alerta que podem nos ajudar a identificar atitudes farisaicas em nossa vida. O primeiro sinal é a visão desdenhosa dos outros. A todo tempo nos comparamos com os outros, e inconscientemente os julgamos, desfavoravelmente,  segundo os nossos parâmetros. Como na oração do fariseu descrita em Lc 19.9 “Obrigado Senhor porque não sou como esse publicano…”. Outro sinal de farisaísmo é o senso superficial de perdão. Jesus demonstrou “…aquele a que pouco se perdoa, pouco ama”, conforme escrito em Lc 7.47. Entretanto nós temos dificuldade em assumir os nossos pecados e admitir a nossa necessidade de perdão. Colocamos holofotes sobre as nossas qualidades e varremos para baixo do tapete alguns pecados. Outro sinal de farisaísmo é o senso equivocado de graça e justiça. Como demonstrado na parábola do filho pródigo, o filho mais velho, o fariseu, não conseguiu aceitar a graça com que o Pai recebeu o filho que tinha se perdido. A mesma reclamação é vista nos trabalhadores que trabalharam o dia inteiro e ganharam o mesmo que os que chegaram por último, conforme a parábola registrada em Mt 20.1-16.  Os que trabalharam o dia todo não reconheceram a graça que estava primeiramente sobre eles e que foi estendida aos que chegaram mais tarde, antes reivindicaram “justiça” ao Senhor da vinha. E por último, mas um sinal de farisaísmo é a visão doentia de fracasso. Ao contar a parábola dos lavradores maus, Jesus estava apresentando para os fariseus a atitude de rejeitar a repreensão e atacar aquele que repreende. Então com isso ele abriram os olhos e se arrependeram? Não, fizeram exatamente o oposto, mataram Jesus. Fizeram exatamente o que a parábola estava advertindo para não fazer. Isso é muito comum em nós, quando temos nossos erros expostos temos a tendência de fugir, fingir, desdenhar, ou até atacar, ao invés de nos quebrantarmos diante de Deus.

Qualquer cura para o farisaísmo deve começar com uma crescente consciência e admissão da depravação e da dependência. Uma boa analogia que se aplica muito bem é o exemplo do Alcoólicos Anônimos, o programa que tem ajudado inúmeras pessoas a superar o alcoolismo. Alguns dos princípios que fazem esse programa ter sucesso são: admitir a própria impotência perante o álcool, e confiar em poder superior para ajudar a superar. Do mesmo modo nós só poderemos vencer a nossa natureza depravada se admitirmos a nossa impotência perante o pecado e admitirmos a nossa dependência de Deus para o processo de santificação.

Quando o conhecimento bíblico cega e aprisiona

Muitas vezes julgamos que “alimentar-se com as Escrituras resulta em espiritualidade”. Mas na prática não vemos isso acontecendo tão facilmente. Principalmente quando vemos a história da igreja, podemos ver inúmeras barbaridades sendo cometidas em nome de Deus e fundamentadas (de forma errada, é claro) em palavras da bíblia. Os próprios fariseus são o melhor exemplo disso. Conheciam muito bem a Lei de Deus e baseados no zelo que tinham pela Lei de Deus julgaram e condenaram o Filho de Deus.

No caso dos fariseus, a doutrina deles, ou, a forma como interpretavam as Escrituras, formava uma “grade” por intermédio da qual eles “filtravam” a verdade. Foi assim que condenaram Jesus, por ele não se enquadrar no esquema teológico que tinham. Era mais fácil para eles matar Jesus e acabar com o problema do que rever toda a sua teologia e perceber que Jesus era realmente o filho de Deus. E depois, quando Jesus ressuscitou, foi mais fácil para eles mentir dizendo que o corpo havia sido roubado, do que admitir que tinham errado em condená-lo. Tudo isso porque não quiseram abrir mão do seu conhecimento bíblico equivocado.

Quando o relacionamento particular se torna um espetáculo público

A maioria das religiões prescreve comportamentos similares por meio dos quais as pessoas podem demonstrar a sua fé. Essas ações geralmente englobam doações, oração e alguma forma de autorrenúncia. Se o caminho interior, do desenvolvimento espiritual, é um caminho difícil, de negação de si mesmo, de quebrantamento, de dependência de Deus, e sem resultado imediato; o caminho exterior, da religião, é muito mais rápido e prático. É fácil conseguir o reconhecimento das pessoas por meio de atos de piedade: doações, orações e sacrifícios. É fácil também conseguir destaque no meio religioso e ganhar cargos, posições de destaque. Este é o caminho largo, mas não é o caminho que leva a Deus.

Os fariseus sempre são reconhecidos por nós como os falsos religiosos, entretanto não vemos que eles não eram piores do que nós. Os próprios fariseus reconheciam e condenavam a hipocrisia. O Talmude até descreve sete tipos de hipocrisia a serem evitados. Mesmo assim eles cometeram o erro que tentaram evitar. E nós cometeríamos um desastre muito maior se não tivéssemos muito mais disposição que eles pra reconhecermos a própria hipocrisia e nos curarmos dela.

Jesus não disse que não era preciso doar, orar e jejuar. Mas ele ensinou uma forma muito mais profunda de fazer isso. Ele ensinou a fazer isso na presença de Deus, e não na presença dos homens. Não que não devamos fazer em público, mas sim que mesmo orando em público devemos dirigir nossas palavras a Deus com sinceridade, sem se preocupar em fazer uma “oração bonita” para impressionar os homens. Porque aquele que conquista o reconhecimento dos homens já ganhou a recompensa, e não tem mais nada a receber de Deus.

Jesus também não disse que não é preciso dizimar, ofertar ou doar. Mas ele também ensinou uma forma muito mais profunda de fazer isso. Ele denunciou aqueles que doavam, mas no fundo tinham a intenção de receber a honra dos homens. E principalmente, Jesus ensinou que esses atos de piedade não devem ser praticados como para atender a um conjunto de exigências religiosas, mas sim como uma forma de buscar a Deus, e por a mor a Deus.

Quando a tradição distorce a verdade

O apego à tradição também pode ser uma forma de farisaísmo. É claro que a tradição é uma coisa boa, até indispensável. Ela ajuda a organizar a nossa sociedade e a nossa vida pessoal. Um pastor não precisa cada semana ligar para todos os membros da igreja para marcar a data e horário do próximo culto, pois há uma tradição, e por ela todos sabem que quando é a hora de se encontrar na igreja. O problema está em quando à tradição um valor maior ao que ela realmente tem. É o que acontece quando um irmão propõem alterar o horário e então todos

As tradições não são sagradas, elas existem para nos ajudar. Mas muitas vezes nós nos dobramos a eles. O mundo, a sociedade e a vida são dinâmicas, e exigem uma resposta dinâmica de nossa parte, mas é comum nós, religiosos, imitamos a nossa ação por medo de quebrar a tradição. Algumas vezes até as tradições que nos impedem de inovar elas mesmas já foram no passado atitudes inovadoras.

Mas pior ainda é quando colocamos as tradições acima das Escrituras. Isso os fariseus fizeram muito, e faze até hoje. Como demonstrado em Mc 7.9-13, os fariseus faziam votos como o Corban, para se esquivarem de algumas responsabilidades maiores. O Corban era um voto em que a pessoa consagrava os seus bem para serem doados para o templo após a morte da pessoa. Como um testamento. Uma vez que esses bens eram consagrados como Corban eles não poderiam mais ser vendidos ou doados a ninguém, mas poderiam ser desfrutados pelo seu possuidor. E desta forma os fariseus conseguiam aparentar piedade, por doar seus bens, e ao mesmo tempo tinham uma justificativa para não cumprir o mandamento de honrar os pais, sustentando-os na sua velhice.

Quando a cerca se torna o foco

A lei de Deus tem o propósito de nos proteger do mal e nos santificar. É muito bom obedecer à lei e tomar cuidado para não errar. Entretanto, nesse cuidado para não pecar contra a lei, muitas vezes criamos “cercas” na lei. O primeiro exemplo disso já é muito remoto. Eva, ao ser indagada pela serpente sobre o fruto proibido, afirmou que o mandamento de Deus era “…nem nele tocareis”. Mas não foi isso que Ele disse, Ele apenas disse para não comer. Talvez pelo medo da tentação ela tenha dito para si mesma que não deveria “nem tocar” no fruto. E a mesma coisa o ser humano tem feito constantemente com a lei de Deus.

Há uma virtude nisso. Essas cercas são muito úteis para nos manter afastados do pecado. O problema está em colocá-las em igual nível da Palavra de Deus. Ou em algumas vezes a vontade de Deus é até deixada de lado por causa das cercas. O exemplo disso é a indignação que os fariseus apresentaram o ver Jesus curando um homem no sábado. A lei de Deus realmente dizia para guardar o sábado. Mas o que significa “guardar” o sábado. Deus não disse detalhadamente que pode e o que não pode fazer. Então, para resolver isso os judeus estudiosos da lei desenvolveram um complexo sistema para detalhar tudo o que poderia e não poderia ser feito, e as eventuais exceções. E eles se apegaram tão cegamente a essas cercas que esqueceram quais eram as prioridades de Deus, ao ponto de condenarem Jesus por curar um homem no sábado!

O máximo da presunção humana é dizer a Deus como manter as cercas nos devidos lugares. Mas não foram só os fariseus dos tempos de Jesus que fizeram isso. Ainda hoje temos muitos problemas com isso. Na verdade desde o início da igreja o apóstolo Paulo teve que dedicar grande parte do seu esforço para ensinar os novos cristãos a exercer a liberdade em Cristo e não voltar à Lei de Moisés.

Quando o separatismo nos faz desviar

Uma palavra muito mau usada pelos cristãos nos dias de hoje é a “mundanindade”. Ela é usada para descrever tudo o que é mau, não é cristão e não está submisso a Deus. O “mundo” é o lugar onde se peca. O “mundano” é a pessoa que se entrega ao pecado. E a partir dessas definições nós caímos no separatismo. Entretanto há uma compreensão da questão de ser separado. Realmente está bem claro que a vontade de Deus que é nós sejamos separados do mundo. Mas também é vontade de Deus que nós sejamos sal da terra e luz do mundo. Então qual é o conceito correto de “separação” e de “mundanidade”?

Certamente “mundanidade” não é definida pelas com quem andamos, ou os lugares que frequentamos, ou o que fazemos e deixamos de fazer. Só podemos entender isso quando reconhecermos que a nossa depravação caminha conosco para onde quer que formos. Ela está dentro de nós, no coração! Então é possível ser mundano em casa, na rua, no supermercado e até dentro da igreja. Ser mundano, então, é ter o coração inclinado para a direção errada. É buscar a coisa errada. Como os fariseus que parecem ser muito “espirituais” em suas magníficas orações, mas na verdade estão buscando ser honrados pelo mundo.

Jesus foi o exemplo de como ter uma vida separada sem cair no separatismo. Ele andou com aqueles pessoas que eram mal vistas pela sociedade. Frequentou lugares que eram evitados pelos religiosos. Tomou atitudes que os puritanos não tinham coragem de tomar. E apesar de tudo isso permaneceu incorruptível. E seus relacionamentos ele era motivado pela compaixão, e por isso ia até o pecador e o doente para curá-los. Isso mostra que a contaminação não está no exterior, mas sim no interior. Jesus pôde fazer todas essas coisas porque ele tinha um coração puro. E nós, à media em que entregarmos nosso coração para o Pai purificar, então poderemos cainhar sem medo pelo mundo sendo sal e luz.

Quando o doente parece estar em boa forma

Em Mt 23 Jesus emite 7 “ais” para os fariseus[1]. A intenção não era condenar, mas sim expor a doença deles e nossa também. Enquanto nós acharmos que já somos sãos e justos não poderemos ser curados e justificados por Jesus. Então temos que analisar o que podemos aprender com cada “ai”.

“Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.” (Mt 23.13) Entre os inúmeros grupos cristãos á várias divergências teológicas quanto eclesiologia ou escatologia, mas quanto ao que é necessário para entrar no reino dos céus não há muito o que divergir. Mesmo assim não é nossa função julgar as pessoas e dizer quem é e quem não é salvo. Apesar disso, parece ser uma mania dos religiosos querer “guardar a porta dos céus”. O pior é quando um religioso que se considera superior aos outros ensina as próprias opiniões sobre a Palavra de Deus e impõe as próprias condições para a salvação das pessoas. Esta pessoa além de estar do lado de fora da porta ainda está encaminhando as pessoas para a direção errada.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.” (Mt 23.15) É triste vermos que muitas vezes nossas missões evangelísticas estão mais preocupadas em impor a nossa cultura do que anunciar a boa nova. Temos dificuldade para discernir qual é o centro da mensagem de Deus e acabamos pregando idéias que são humanas, são tradições, ou valores culturais. Era isso que aqueles fariseus acusados por Jesus estavam fazendo. Eles não estavam levando as pessoas a conhecerem o Deus Vivo, antes estavam ensinando as pessoas a aderirem aos seus costumes. E com isso acabavam gerando religiosos piores do que eles mesmos.

Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o templo, que santifica o ouro? E aquele que jurar pelo altar isso nada é; mas aquele que jurar pela oferta que está sobre o altar, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar, que santifica a oferta? Portanto, o que jurar pelo altar, jura por ele e por tudo o que sobre ele está; E, o que jurar pelo templo, jura por ele e por aquele que nele habita; E, o que jurar pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que está assentado nele.” (Mt 23.16-22) Este “ai” denuncia o sistema religioso da época que estabelecia hierarquia para vários tipos de juramento. E com essa maneira torta de pôr ordem à pratica do juramento eles acabaram criando várias brechas, e até incentivos, para juramentos ambíguos. Mas nós hoje também criamos meios de fugir de nossas obrigações. O divórcio não é uma forma de justificar a quebra da promessa “até que a morte nos separe”?

O caminho para a boa forma espiritual

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas. Condutores cegos! que coais um mosquito e engolis um camelo.” (Mt 23.23-24) Há coisas que são fáceis de medir, outras não. É fácil medir quantos capítulos da bíblia estamos lendo a cada período, mas é difícil medir o quanto estamos colocando em prática o que aprendemos com essa leitura. Esse “ai” de Jesus adverte sobre a facilidade que temos de fazer as coisas fáceis e nos jactarmos delas e assim encobrirmos a nossa incapacidade de realizar as coisas mais subjetivas, profundas e custosas.

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniqüidade. Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo.” (Mt 23.25-26) Este é um ensinamento áureo de Jesus. Todo o seu ministério e seus relacionamentos com religiosos e pecadores demonstram essa distinção entre a pureza exterior e interior. Os fariseus se esforçavam diligentemente para manter a pureza exterior, e por isso se incomodavam quando pessoas “pecadoras” eram aceitas por Jesus. Eles não conseguiam ver que essas pessoas eram mais puras que eles, pois tinham um coração quebrantado que os levaram a se humilharem perante Jesus. Enquanto isso, os religiosos se consideravam perfeitos, mas estavam com o coração cheio de orgulho e insubmissão. Com isso Jesus ensina que mais vale limpar o interior, o coração, pois a partir dele todo o exterior vai ser purificado.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade.” (Mt 23.27-28) Há muitas poucas formas melhores de esconder a morte espiritual do que com atividade na igreja. Muitas das atividades religiosas não são resultado de um amor a Deus, mas são frutos da culpa, do medo, ou de um vazio insaciável. A beleza exterior pode encobrir a beleza interior. E o maior problema é que isso funciona. Não é a forma correta de viver, mas funciona. É possível ganhar gratificações no meio religioso apensa mantendo uma aparência sacrossanta. Isso pode até saciar provisoriamente alguns desejos do ego, mas não produz vida abundante. Aqui Jesus alerta para o problema sempre presente aparência versus essência.

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas. Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas.” (Mt 23.29-31) Esse último “ai” é talvez o mais chocante para nós que lemos a bíblia. E principalmente para nós que nos consideramos bons cristãos e execramos os judeus e especialmente os fariseus por terem crucificado Jesus. Se Jesus estivesse aqui hoje e apontasse os nossos pecados será que nós agiríamos diferente? É muito provável que não. Com este “ai” ficou demonstrado que mesmo aqueles fariseus que condenavam os “fariseus” do passado, acabaram cometendo o mesmo erro. Nós também edificamos monumentos aos nossos lideres espirituais e mártires do passado, e dizemos que seguimos o exemplo deles. Mas muito provavelmente Lutero não seria aceito hoje na igreja luterana, John Wesley não se juntaria aos metodistas, e Calvino se decepcionaria com os presbiterianos.

A forma que Mt 23 se encerra é muito apropriada, pois conclui com lágrimas, não com escárnio; com choro e não com açoitamento. As denuncias feitas contra os fariseus não eram para humilhá-los mostrando suas imperfeições, mas era sim um ato de amor, uma tentativa de correção. Não podemos ignorar essas advertências como eles fizeram no passado. Temos que acatar as palavras de Jesus e tomar um caminho diferente da religiosidade superficial.

O relacionamento correto

Ninguém teria maior autoridade para expor os problemas do farisaísmo do que o apóstolo Paulo. Ele era um cristão verdadeiro e tinha a vantagem de conhecer de primeira mão todos os aspectos do farisaísmo. Ele era um fariseu exemplar, mas fez questão de deixar bem claro que todas as honras e graduações que alcançou na religião não valiam nada diante do grande valor de ter conhecido a cristo. Ele sabia também que a falsa religião, o legalismo, o farisaísmo são armadilhas sutis, e que o caminho é escorregadio. Por isso advertiu com frequência em suas cartas para que os cristãos não se deixassem levar por essas atitudes mundanas. Antes, que depositassem toda a sua fé em Cristo.

É preciso abandonar a confiança na “carne”. Nenhum método humano pode produzir justificação. Assim como é preciso abandonar as idéias superficiais de espiritualidade. Dizer não à tentação de achar que se está mais próximo de Deus apenas por cumprir alguns rituais religiosos. E a espiritualidade mais profunda é um relacionamento com Deus. Isso não é pretexto para uma atitude licenciosa, mas libertadora. Porque a liberdade em cristo não nos deixa sermos novamente escravos, nem da lei, nem do pecado. Esse mundo não é a nossa casa, por isso não precisamos desejar as coisas que esse mundo oferece, mas podemos aguardar pelo que está prometido para nós.

Por fim, sabemos que o caminho não é fácil. O simples conhecimento de tudo isso não vai nos livrar para sempre de termos comportamentos farisaicos. Sempre podemos errar e precisamos estar sempre atentos. Mas podemos prosseguir para o alvo, tendo a certeza de que a nossa dedicação em buscar a presença de Deus produzirá bons frutos, não pela nossa força, mas pelo poder daquele que nos chamou.


[1] O autor considera apenas sete, dos oito versículos em que Jesus pronuncia “ai”. Isso porque desconfia que no versículo 14 esta palavra tenha sido acrescentada posteriormente, por não constar em manuscritos mais antigos.