Kibutzim

INTRODUÇÃO

       No final do século XIX e início do século XX já havia perseguição aos judeus na Europa e especialmente na Rússia. Na Rússia os judeus, junto com outras minorias étnicas, foram duramente perseguidos. O que começou com discriminação em poucas décadas já se manifestava em ataques violentos gerando centenas e até milhares de mortes. Muitos desses judeus perseguidos fugiram da Rússia e, inspirados pelas idéias sionistas, migraram para a palestina, que na época pertencia ao Império Otomano. Esses imigrantes compraram terras na palestina com o sonho de se dedicarem ao cultivo da terra. Mas junto com as idéias sionistas eles traziam consigo a influência das idéias socialistas trazidas da Rússia. Essas ideologias combinadas possibilitaram o surgimento colônias agrícolas comunitárias, que vieram a ser chamadas de Kibutzim. (Kibutz, no singular)

IDEOLOGIA 

       O Sionismo, também chamado de nacionalismo judaico, é um movimento político e filosófico que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado judaico independente e soberano no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel, e a reversão da diáspora, ou seja, a volta dos judeus espalhados pelo mundo.  O sonho da liberdade e de um estado próprio ganhou muita força na Europa à medida que aumentava o anti-semitismo. Muitos dos judeus que fugiram da Rússia traziam consigo as idéias socialistas, e com colonização da palestina viam a oportunidade ideal para iniciar uma nova sociedade com os valores da igualdade, da liberdade e da democracia.

       Devido a isso os kibutzim se organizaram como sociedades comuns. A terra era com, e todos trabalhavam livremente. Cada kibutz era independente, mas o modelo se espalhou, e à medida que novos imigrantes judeus chegavam à Palestina, essas colônias iam se multiplicando. Por serem independentes as formas de organização também variavam. Alguns empregavam mão de obra externa, outros se mantinham fiéis ao ideal de usar apenas o trabalho comunitário. A posse comum também variava; em geral a terra sempre era comum, mas em alguns kibutzim, todos os bens (até mesmo as roupas) eram comunitários.

       Sobretudo, a organização social dos kibutzim era orientada pelo ideal de vida comunitária. Tanto na parte econômica: trabalho, produção, etc. Quanto na parte social: igualdade entre os sexos, decisões democráticas, celebrações, etc. O grande lema destas comunidades era: “eliminar a relação entre contribuição e remuneração: cada um dá de acordo com sua capacidade e recebe de acordo com sua necessidade.”

       Vale também ressaltar que os primeiros kibutzniks (habitantes de kibutz), traziam consigo o ideal de dedicar a vida ao trabalho na terra. Eles acreditavam que não eram boas as tradicionais atividades em que se ocuparam os judeus dispersos pelo mundo: empréstimo de dinheiro e comércio. “Eles não só defendiam que do cultivo da terra palestina adviria a redenção física e espiritual do povo judeu, como chegavam a acreditar que o solo da Palestina tinha o poder mágico de transformar os fracos comerciantes judeus em lavradores nobres e fortes.”

HISTÓRIA

       A primeira grande imigração de judeus Russos para a palestina ocorreu na década de 1880 (Primeira Aliá). Foi a segunda Aliá que, na década de 1900 que trouxe os fundadores dos kibutzim. Após a queda do Império Otomano, com o fim da Primeira Guerra, a região do oriente próximo foi dividida entre França e Grã Bretanha sob a promessa de criação de um estado judaico e um estado palestino. Aproveitando essa oportunidade a Organização Sionista Mundial (OSM) passou a incentivar a criação de colônias agrícolas espalhados pela região. O objetivo era ocupar o máximo de terras para tirar vantagem na hora da demarcação do território, que aconteceu em 1948 por intermédio da ONU. Com o incentivo da OSM e subsídios do Fundo Nacional Judaico e de filantropos judeus, e com a chegada de mais imigrantes após a grande guerra (Terceira Aliá), o número de kibutzim continuou a crescer.

       O sistema de colonização por meio de kibutzim, apesar de sua grande contribuição para a formação do Estado de Israel, nunca foi muito representativo em termos quantitativos. Seu crescimento foi menor do que o crescimento das cidades. O movimento nunca ultrapassou 7% da população do país, muito embora tenha fornecido uma grande parte de seus intelectuais, líderes e políticos. Mas talvez a contribuição mais relevante tenha sido durante a Guerra da Independência. Quando o estado israelense foi instituído seguiu-se uma grande disputa de território entre Israel e uma coalizão de nações árabes. Durante os dezenove meses em que durou esta guerra a posição estratégica dos kibutzim nas regiões fronteiriças e o empenho dos seus habitantes na defesa do território foi decisiva para a vitória israelense.

CULTURA

       A cultura dos kibutzim iniciou e se desenvolveu baseada no princípio da valorização da vida comunitária. Um claro exemplo disso são os refeitórios comuns. Em alguns kibutzim as famílias nem tinham utensílios de cozinha em suas casas, pois assim faziam todas as refeições no refeitório e passavam mais tempo em comunhão.

       A democracia é outra marca presente nessas comunidades. Em cada uma delas as principais decisões são tomadas em assembléias e a questões quotidianas são administradas por líderes democraticamente escolhidos.

       Há também uma forte participação dos kibutzniks na política fora de sua comunidade. Vários kibutzim se organizaram em associações. A Kibutz Artzi foi uma associação que por várias décadas representou o movimento de esquerda. Em 1936 fundou um partido político chamado Liga Socialista da Palestina, que depois se fundiu a outro partido para formar o atual Meretz. Outra associação, a de Kvutzot, se diferenciou por convencionar que todos os seus kibutzim não passassem de duzentos habitantes, com o objetivo de manter as relações íntimas entre os habitantes. E a principal corrente do movimento kibutz foi o Kibutz Hameuhad, que acolhia tantos membros quanto fosse possível.

       A maioria dos kibutzim era secular. Os Artzi eram ateus. Os Hameuhad desprezavam o judaísmo ortodoxo, mas ainda conservavam características judaicas, como por exemplo, o Shabat: o trabalho não era exercido nos sábados sempre que pudesse ser evitado. Também celebravam algumas festividades da cultura judaica. Entretanto também houve uma facção ultra-religiosa, o chamado Kibutz Dati, que surgiu tardiamente.

       Outro exemplo marcante é o fato de muitos kibutzim tinham a prática de criar as crianças comunalmente. Para isso foram instituídas comunidades especiais denominadas “Sociedades das Crianças”. Nestes lugares as crianças eram cuidadas e educadas por enfermeiras e professores. Os pais tinham apenas algumas horas por dia para passarem com seus filhos. Isso tinha como objetivo liberar os pais para se dedicarem a outras atividades e por outro lado dar uma educação de qualidade profissional padronizada para todas as crianças.

       Muitos estudos sociológicos e psicológicos foram feitos sobre esse curioso modo de tratar as crianças. Alguns defendem que esta forma de educação é mais saudável, outros dizem que é prejudicial. De fato, as crianças que foram criadas dessa forma desenvolveram um sentido de comunidade mais forte e uma capacidade de apego emocional mais fraca. Entretanto é difícil de fazer um juízo sobre o valor disso. Há indícios também de que essas crianças tenham vantagens intelectuais sobre as crianças que receberam a educação tradicional.

ECONOMIA

       Os primeiros kibutzim se basearem em economia agrícola e tinham o objetivo de se tornarem auto-suficientes, tanto em produtos agrícolas quanto em mão de obra.  Isso nunca se concretizou. Desde a iniciação, um kibutz era dependente. A terra pertencia ao Fundo Nacional Judaico, e as atividades eram subsidiadas por meio de empréstimos a juros baixos ou descontos em taxas de água.

       Antes mesmo do estabelecimento do Estado de Israel os kibutzim começaram a investir também em manufatura. Passaram também a contratar mão de obra de fora, tanto para trabalhar no campo na época de colheita quanto nas novas fábricas. Houve uma grande onda de industrialização na década de 1960, e atualmente os kibutzim estão passando por uma segunda transição: da atividade industrial para o setor de serviços a atividades de turismo. Hoje apenas 38% dos quem trabalham em um kibutz são membros dele. E apenas 15% dos membros trabalham em agricultura.

       Alguns kibutzim se desenvolveram tanto na atividade econômica que hoje possuem grandes empresas multinacionais, algumas até listadas em bolsa de valores. Alguns têm passado por privatizações, o que permite que os kibutzniks tenham empregos remunerados de acordo com a sua profissão, diferente da divisão igualitária de bens da idéia inicial. Vários bens e serviços que eram antes eram de propriedade coletiva, como os refeitórios, agora são serviços pagos. A economia de mercado capitalista tem tomado conta da maioria das comunidades.

SITUAÇÃO ATUAL

       Atualmente o movimento kibutz perdeu seu caráter socialista. Na década de 1980 houve uma onda de empréstimos em investimentos em novos negócios e até na bolsa de valores, o que fez enfraquecer as idéias coletivistas. Hoje a maior parte dos kibutzim que está no ponto de equilíbrio, alguns poucos são ricos, e muitos são deficitários.

       O princípio de “de cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com sua necessidade”, tem sido substituído por uma lógica de tom mais capitalista: “de cada um de acordo com suas preferências, para cada um de acordo com suas necessidades”. O trabalho passou a ser dividido por especialização, os custos passaram a ser cobrados conforme o uso pessoal e as famílias foram se recolhendo mais às residências particulares. O sistema de “Sociedades de Crianças” não existe mais da forma como era antes. E há uma tendência de privatização dos bens e meios de produção.

       A industrialização do kibutz nos anos 1960 levou a um aumento no padrão de vida do kibutz, mas essa melhoria no padrão de vida significava um final ao auto-sacrifício que o israelense normal tanto havia admirado. Após o período de hiper-inflação nas décadas de 70 e 80 os kibutzim ficaram altamente endividados, e o socorro governamental recebido desgastou o prestígio perante a sociedade israelense.

       A população de habitantes de kibutzim cresceu de 1910 até 1990, depois só diminuiu. Entretanto, desde 2003 há um reflorescimento dessas comunidades. O futuro é incerto, mas há uma proeminência dos kibutzniks no movimento ambiental de Israel e no ativismo pela paz. Como essas comunidades ainda são estratégicas para a defesa territorial do estado, é muito provável que o governo continue mantendo o incentivo para elas. Isso lhes dará uma oportunidade para se reorganizarem, como está começando a acontecer em tentativas de criação de kibutzim urbanos.

REFERÊNCIAS
– Revista Morasha:
http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=860&p=4
– Fundação AVI CHAI:
http://www.avichai.org.il
– Professor Marcio Dantas
http://professormarcianodantas.blogspot.com/2011/07/criacao-do-estado-de-israel-e-os.html
– Wikipedia – Enciclopédia Livre:
http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Especial%3APesquisar&search=kibutz