“A desordem do progresso”

     “O que aparentemente leva a que o grande êxito da ciência carregue o germe de seu fracasso é que o lado da razão, aplicado à lógica de controlar o real do mundo físico, evoluiu de maneira muito mais rápida do que o lado do sentimento de definição dos propósitos do controle que o homem, como ser social, exerce sobre a realidade. Criou-se uma ciência que se realiza graças à globalidade das explicações e do horizonte do poder, mas mantém-se o funcionamento social com base em motivações individuais, no máximo nacionais. Criamos o poder de destruição planetária, mas não criamos uma consciência planetária.

     Segundo Koestler*, essa situação deriva do fato de que, no cérebro humano, o lado da razão eficientista tende a um desenvolvimento mais rápido do que seu lado emocional. O homem comporia assim a única espécie esquizofrênica do universo, e por isso a única cuja extinção se dará por ações endógenas, em um processo suicida. Cabe lembrar que Koestler começa seu livro dizendo que, se fosse escolher a data mais importante da história da espécie humana, seria o dia 6 de agosto de 1945. “A razão é simples. Desde o alvorecer da consciência, até o dia 6 de agosto de 1945, o homem precisou conviver com a perspectiva de sua morte como indivíduo. A partir do dia em que a primeira bomba atômica sobrepujou o brilho do Sol em Hiroshima, a humanidade como um todo teve que conviver com a perspectiva de sua extinção como espécie.” É interessante que ele não se referiu à data de 16 de julho de 1945, quando a bomba explodiu experimentalmente, pela primeira vez, no deserto de Los Álamos, no Novo México. Até aquele momento, a bomba era basicamente a produção de um único lado do cérebro, na racionalização fria do poder de conhecer e manipular o mundo. É em 6 de agosto que a estética da razão dá lugar ao lado emocional que utiliza o poder criado pelo outro lado do cérebro. Um lado adquire o novo poder de manipular a natureza, o outro manipula este poder de manipular, com base em emoções e sentimentos tão primitivos quanto a espécie humana.

Cristovam Buarque, em: A desordem do progresso
* Clique na foto para conhecer o blog do político brasileiro que mais trabalha pela educação.

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