A pedagogia da raposa

 Introdução


        “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” A primeira vez que me deparei com essa frase foi a mais ou menos três ou quatro anos atrás. Não foi no livro, foi no MSN, no tempo em que eu ainda usava isso. Mesmo fora do contexto do livro essa frase fez muito sentido para mim e tenho frequentemente meditado sobre ela. Agora que li o livro muitas outras coisas me chamaram a atenção. Poderia comentar sobre várias passagens, mas, tendo que escolher apenas uma, sou impelido a escrever sobre esse encontro do pequeno príncipe com a raposa.

        Carlos Drummond de Andrade disse “convive com teus poemas, antes de escrevê-los”. Eu pessoalmente concordo com ele, e levo isso a sério. E mais ainda, quando um poema de outra pessoa me toca, eu passo a conviver com o poema depois de tê-lo lido. Parece que fica ecoando no íntimo até se acomodar em algum lugar da alma de onde um poema igual poderia ter saído. Por isso que talvez eu tenha mais a dizer sobre a passagem da raposa, sendo que este segredo que ela dá de presente ao seu amigo é um poema que tem convivido comigo há alguns anos.

Resumo

        A passagem é a seguinte. Inicia no final do capítulo XX. O pequeno principezinho estava andando pela e estrada e encontra um jardim cheio de rosas. Isso o deixa impressionado, pois a rosa que habita em seu planeta se dizia ser a única de sua espécie. Ele se considerava rico por possuir uma flor tão especial, e agora estava frustrado por saber que a sua flor era igual às milhares de outras rosas.

          E nesse momento aparece a raposa. Ele pede para brincar com ela, mas ela quer ser cativada. O principezinho não sabe o que isso significa e pergunta para ela. Então a raposa explica: Não podem brincar juntos porque são estranhos um para o outro. Para a raposa o principezinho é apenas um menino igual a todos os outros. Assim também para o principezinho a raposa é só mais uma entre tantas raposas.

        A raposa se sente sozinha, pois não tem amigos. Todos os homens para ela são iguais. E o mundo também não tem muito sentido para ela. Mas se eles se tornassem amigos até os campos de trigo teriam um sentido para a raposa, pois lembrariam o cabelo dourado do principezinho. O pequeno príncipe se desculpa com a raposa dizendo que não tem tempo para cativá-la, pois precisa continuar seu caminho e ainda tem muitos amigos a descobrir e coisas a conhecer. Então a raposa avisa que “a gente só conhece bem as coisas depois que cativou”. E isso leva tempo. Os homens não têm amigos porque querem tudo pronto, como nas lojas.

        O principezinho vai embora, mas volta no outro dia. Os dois continuam conversando e se tornam amigos. A raposa fala sobre os ritos, que são o que faz com que os dias não sejam todos iguais. Mas chega a hora de partir e a raposa começa a chorar. O principezinho fica incomodado com isso e pergunta por que ela quis ser cativada se sabia que logo ele iria embora. A resposta é que ela vai ficar com o amigo na memória. Ela jamais vai olhar os campos de trigo da mesma forma. Agora os campos têm um significado.

        A raposa ainda pede ao seu amigo para que ele vá ver novamente as rosas e depois volte para se despedir e receber um segredo de presente. Ele vai, e agora percebe que, embora todas as rosas sejam bonitas e se pareçam com a sua, nenhuma delas têm o mesmo valor. Aquela rosa plantada em seu planeta era especial porque lhe cativou. As horas em que passou junto com ela, o cuidado que teve para com ela e as discussões que tiverem fizeram com que ela tivesse um significado especial para ele.

        Ao voltar para se despedir da raposa, esta lhe contou o segredo: “o essencial é invisível aos olhos”. Foi o relacionamento que tivera com sua rosa que a fez tão importante para o principezinho. E mais: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Ele era responsável por sua rosa.

Reflexão

        No meu primeiro ano de faculdade tive uma disciplina chamada “Teoria Social e Organizações”. O professor era um sociólogo – muito inteligente, diga-se de passagem – que resolveu não nos ensinar a Sociologia, mas nos fazer pensar sobre a sociedade. Até hoje foi um dos professores que mais me marcaram. O livro que ele nos deu para ler foi A Corrosão Do Caráter, de Richard Sennett. Este livro fala algo muito parecido com o que a raposa de Saint-Exupéry afirmou. Sennett afirma que a sociedade hodierna, com toda sua flexibilidade e inconstância, não dá mais espaço para as pessoas se conhecerem. Considerando que o caráter de uma pessoa só se revela ao longo do tempo, ele afirma que essa escassez de tempo faz com que as pessoas não mais se conheçam com profundidade. E então, como não há tempo para procurar conhecer o caráter dos outros e de demonstrar o próprio, as pessoas passam a viver de imagem.

        Esta constatação, junto com o impacto da frase “és eternamente responsável por aquilo que cativas” influenciou profundamente a forma com que vejo o mundo. Fez-me (e ainda me faz) pensar que a pós-modernidade traz perigosas armadilhas, que, se não identificadas, aprisionam o indivíduo em um labirinto que o afasta dele mesmo. Porque o mundo precisa ser um ambiente saudável, não só para nós vivermos e desfrutarmos, mas para nos “construirmos”.

       Entendendo a educação, especialmente a cristã, como um trabalho de humanização, de não apenas fornecer informação, mas de conduzir, instigar, e ajudar o indivíduo a interpretar a vida, e o seu papel no mundo; nesta perspectiva o lugar de educar e ser educado se estende muito além dos limites da escola. Abraça o mundo! Sei que tenho esse conceito claro em mim desde muito cedo. Graças ao exemplo do meu avô Carlos. E ele fez um poema e cantava com toda alegria e simplicidade: “Vida, escola ideal/Que atinge todo ser./Cristo é o mestre sem igual/Pois há muito que aprender/Pois há muito que aprender.

        O irônico é que a gente precisa aprender a viver, mas só é possível aprender a viver vivendo. Não há como “treinar antes”, viver uma vez só para ver como é de depois começar tudo de novo, agora “pra valer”. E daí vem a importância do educador. Rubem Alves explica muito bem em poucas palavras: “educar é mostra a vida a quem ainda não viu”.

    Voltando à questão das armadilhas que a sociedade pós-moderna esconde, o educador tem a missão de ensinar o educando a reconhecer essas armadilhas e não cair no labirinto. Ou, se já for tarde, a sair do labirinto. Em um mundo onde o que importa é a quantidade; quantidade de amigos no Orkut, MSN, Facebook, quantidade de seguidores no Twitter, Blogspot; alguém precisa ensinar os “calouros da vida” a verem o que é invisível aos olhos. Em um mundo onde o caráter corroído é encapado com aparência, estética, estilo, etc.; alguém precisa mostrar a vida a quem não percebe que a beleza da vida está no fato dela ainda estar em construção. Alguém precisa mostrar aquilo que o mestre Jesus já ensinou, que amizade não é apenas auto-afirmação, é também aceitação.