Inácio de Antioquia

BIOGRAFIA

inacio

Nasceu na Síria entre 35 – 50 d.C. Pouco se sabe do início de sua vida e muito menos de sua família, segundo a lenda Inácio foi a criança que Jesus segurou em Mc 9:33 foi discípulo do apóstolo João, segundo Eusébio de Cesaréia sucedeu Evódio como terceiro bispo na Igreja de Antioquia. Segundo a lenda, Inácio foi a criança que Jesus segurou em seus braços em Mc 9:33. Escreveu sete cartas que foram escritas entre as breves paradas das suas viagens, estas são: a Policarpo de Esmirna, aos Efésios, Esmirniotas, Filadélfos, Magnésios, Romanos e aos Trálios.

Sua influência e autoridade era tão grande que era conhecido como Teóforo (do grego antigo ϑεοϕόρος, composto de ϑεο- “deus” e -ϕόρος “portador”) Por volta de 107 d.C, nono ano do reinado de Trajano, foi preso e levado a Roma, onde foi entregue as feras nos Coliseu. Inácio via o seu martírio como uma forma de anunciar o evangelho e como gesto de entrega ao Senhor.

Inácio rogava pela unidade da Igreja e pela obediência aos bispos e presbíteros, frases como “o bispo é nada menos do que o representante de Deus diante da congregação”, “Assim como o Senhor nada fazia sem o Pai, seja pessoalmente, seja por meio dos apóstolos, também vocês nada devem fazer sem o bispo e os presbíteros”, demonstravam a importância que Inácio dava a autoridade dos lideres da Igreja. Também enfatizava a divindade e humanidade de Cristo como forma de combater o gnosticismo; também concebia a Eucaristia como sacramento, e a descrevi como “remédio da imortalidade”.

 
CARTA AOS EFÉSIOS

A carta de Inácio aos efésios é a mais longa das sete. Aborda vários temas da vida cristã e comunitária e está repleta de referências ao Antigo Testamente, aos Evangelhos, às cartas paulinas e à carta aos Hebreus.

Conteúdo

O tema mais recorrido nesta carta é a unidade. O bispo inicia o seu texto fazendo uma exortação à unidade, embora logo também elogie o bom procedimento dos efésios neste quesito. E esta não era uma avaliação particular dele, pois afirma que “o próprio Onésimo elogia grandemente vossa boa ordem em Deus, pois que vós todos viveis de acordo com a verdade, e que nenhum partidarismo tem qualquer amparo entre vós“.

Aliás, não faltam elogios a esta igreja em o texto da carta. Inácio faz algumas exortações, dá conselhos, mas sempre demonstrando que a intenção não é corrigir, mas sim animar os seus leitores. Podemos perceber que na avaliação dele, a igreja de Éfeso estava fazendo tudo muito bem. E parece que esta não era uma opinião apenas de Inácio, pois podemos vê-lo comentando que esta igreja era “afamada e celebrada através do mundo”.

Além emitir recomendações e elogios, o bispo de Antioquia encheu sua carta de divagações teológicas e louvores, ao estilo do apóstolo Paulo. Como podemos perceber neste louvor à unidade:

se a oração de um ou dois possui tal poder que Cristo se põe no meio deles, quão mais poderá a oração do bispo e de toda a Igreja, ascendendo em harmonia a Deus, prevalecendo pela concessão de todas as suas petições em Cristo!

Além da questão da unidade, também são abordados os temas do respeito ao bispo, presbítero e diáconos, o cuidado com os falsos mestres e as falsas doutrinas, a oração, a humildade, a fé, o amor, a santidade e a perseverança inspirada no fato de que “os últimos tempos se aproximam“.

Destaca-se, pelo tom proverbial, a afirmação de que “aqueles que a si mesmos professam ser Cristãos são conhecidos não somente pelo que dizem, mas pelo que praticam“, ao fazer seu convite à santidade; e, por sua beleza poética, a sentença: “O início da vida é a fé, e a conclusão é o amor“. Há um parágrafo curioso que fala sobre “três célebres mistérios”. Este pequeno discurso se destaca pela riqueza de imagens, pela sua profundidade da reflexão, e pelo final triunfante:

Agora a virgindade de Maria foi oculta do príncipe deste mundo, como foi também sua descendência, e a morte do Senhor; três mistérios notórios, que foram formados em silêncio, mas que nos têm sido revelados. Uma estrela brilhou no céu sobre tudo o que havia diante dela, e sua luz foi indescritível, enquanto seu surgimento atingiu os homens com perplexidade. E todo o restante das estrelas, com o sol e a lua, formou um coro para esta estrela. Ela em muito excedeu a todos em brilho, e agitação foi sentida assim que este novo espetáculo [ocorreu]. Daí a sabedoria do mundo se tornou em loucura; o encantamento foi visto como sendo mera futilidade; e a mágica se tornou completamente ridícula. Cada lei de maldade se desvaneceu; a escuridão da ignorância foi dispersa; e a autoridade tirânica foi destruída, Deus se manifestou como homem, e homem mostrando poder como Deus. Mas, não foi o primeiro [evento] uma mera imaginação, nem o segundo implica uma humanidade desnuda, mas o primeiro foi absolutamente verdade, e o outro um proveitoso acerto. Agora que recebemos um princípio que foi aperfeiçoado por Deus. Daqui em diante todas as coisas estarão em estado de tumulto, porque Ele refletiu a abolição da morte.

E como última observação, gostaríamos de destacar também este parágrafo onde ele se refere à sua própria condição de prisioneiro condenado à execução. É impressionante a forma como o mártir encara a própria morte com coragem inspirada por seu Senhor, e belíssima a alusão que faz às suas cadeias como sendo “joias espirituais”:

Em momento algum desejai algo, mesmo que seja somente respirar, sem a presença Dele. Porque Ele é minha esperança, Ele é minha exultação; Ele é minha riqueza infalível, por cuja razão eu levo sobre mim estas cadeias da Síria a Roma, estas jóias espirituais, nas quais possa eu ser aperfeiçoado por vossas orações, e tornar-me um participante dos sofrimentos de Cristo e ter parte com Ele em Sua morte, Sua ressurreição dos mortos, e Sua vida eterna.

Referências históricas

Já no início da carta, Inácio cita Onésimo como bispo da igreja remetente, o qual descreve como “um homem de inexprimível amor”. E aqui surge uma pergunta inquietante: seria este Onésimo o mesmo que Paulo cita na carta a Filemom? Se for, então este amável bispo de Éfeso era aquele escravo fugido que foi convertido pela pregação de Paulo, discipulado e reenviado ao seu antigo senhor, mas então como irmão, e não como servo. Entretanto, não pudemos encontrar na carta nenhuma prova disso e nossa humilde pesquisa também não encontrou parecer sobre isso de outros estudiosos.

Além das referências ao bispo Onésimo e das inúmeras referencias a Paulo, há também uma única referência à pessoa de Lucas, em:

como Lucas testifica: ‘de quem o louvor é no Evangelho através de todas as Igrejas.’

Não encontramos na Bíblia estas palavras atribuídas ao historiador.

Também vemos referência ao apóstolo João e a Timóteo, que aliás, recebe um generoso elogio:

Que eu possa a isto alcançar, para ser contado com o grupo dos Cristãos de Éfeso, que tem sempre tido comunicação com os apóstolos através do poder de Jesus Cristo: com Paulo, e João, e Timóteo o mais fiel.

Há uma referência à igreja de Esmirna, e um grupo que teria sido enviado para lá:

Possa eu, por minha vez, ser o meio para a restauração de vossas forças e daqueles que, para a honra de Deus, vós enviastes a Esmirna;

Além de duas referência à igreja de Antioquia, da qual Inácio era bispo:

a Igreja de Antioquia que está na Síria, de onde sigo preso para Roma

E por fim, uma referência a Policarpo, ao qual escreveu também uma das sete cartas:

por esta razão também vos escrevo, dando graças ao Senhor, e amando a Policarpo da mesma forma que vos amo.

Referências Bíblicas

Cerca de 46 citações bíblicas. Entre elas, pudemos identificar Ef, 1 e 2 Tm, 1 e 2 Co, Jo, Hb, Tg,Lc, Is, Sl, Jr, Mt, 1 Pe, At, Rm, Cl, Ct.

CARTA AOS DE MAGNÉSIA

Magnesia era uma cidade na costa da Ásia Menor, atualmente na Turquia.

Conteúdo

Esta epístola trata da unidade, do respeito ao bispo, presbíteros e diáconos, e o cuidado com os judaizantes. Foi escrita enquanto Inácio estava em Esmirna, na presença de Policarpo, Bispo desta igreja, e alguns de Éfeso que estavam ali.

Saúdam-vos os efésios de Esmirna, de onde eu vos escrevo. Eles vieram aqui para a glória de Deus, como também vós. E em tudo me reconfortaram, juntamente com Policarpo, bispo dos esmirniotas.

Assim como na de Éfeso, nesta carta o bispo de Antioquia faz muitas recomendações, mas sempre elogiando. Ele fala mais para fortalecer do que corrigir algo. Isto fica bem claro neste trecho, em que conclui o tema do cuidado com judaizantes:

Meus caríssimos, não vos escrevo isso por ter sabido que alguns dentre vós se comportam desse modo. Ao contrário, embora inferior a vós, quero deixar-vos de sobreaviso, para que não sejais fisgados pelo anzol da vaidade, mas estejais convencidos do nascimento, da paixão e da ressurreição que aconteceram sob o governo de Pôncio Pilatos. Essas coisas foram realizadas verdadeira e seguramente por Jesus Cristo, vossa esperança, da qual nenhum de vós possa jamais se afastar.

Aliás, esta preocupação com os judaizantes, que já estava nos escritos paulinos, parece que também preocupava a Inácio. Ele chega a classificar como “velha fábulas que são inúteis” as “doutrinas heterodoxas” daqueles que tentavam misturar a lei com a graça. E sobre o guardar o sábado ele diz que “aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte”.

Outra coisa que nos chama atenção na carta é a forma como é tratada a relação dos membros da igreja com os seus líderes. Assim como nas outras cartas, Inácio fala da importância de respeitar o bispo, os diáconos e presbíteros. Mas aqui ele evoca uma autoridade elevadíssima demais para estes líderes, e uma enorme dependência por parte dos membros:

Por isto vos peço que estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros, que representam o colégio dos apóstolos, e dos diáconos, que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai e por fim se manifestou.

Esta forma de falar ajuda- nos a entender a força que teve a estrutura eclesiástica católica nos séculos seguintes. Talvez aqui esteja a raiz desta ideia de que o bispo é um “sacerdote”, um “representante de Deus”, dando depois a autoridade máxima ao bispo de Roma.

Entretanto, é seria temerário julgar o mártir Inácio por esta ênfase descalibrada na autoridade dos líderes. O contexto em que viviam talvez exigisse posturas radicais. Talvez pela perseguição, talvez pela falta de experiência da igreja que estava apenas surgindo, talvez pelas heresias que estavam surgindo, ou talvez ainda por uma postura conformista baseada na crença de que Jesus voltaria ainda naquele século. Está claro de que a visão deles não era a de estimular a autonomia dos crentes:

Assim como o Senhor nada fez, nem por si mesmo nem por meio de seus apóstolos, sem o Pai, com o qual ele é um, também vós não façais nada sem o bispo e os presbíteros.

Referências Históricas

Não foram encontradas muitas, além da já referida referência à igreja de Esmirna, onde a carta foi escrita e a Policarpo. Há uma referência ao bispo de Magnésia no início da carta, mas Inácio não se refere a ele pelo nome. Por este texto só podemos descobrir que era um homem jovem:

Convém que não abuseis da idade do vosso bispo, mas, pelo poder de Deus Pai, lhe tributeis toda reverência. De fato, eu soube que vossos santos presbíteros não abusaram de sua evidente condição juvenil, mas, como gente sensata em Deus, se submetem a ele, não a ele, mas ao Pai do bispo de todos, Jesus Cristo.

CARTA AOS DA TRÁLIA

Trália era antiga cidade da Cária, região mediterrânea da Ásia Menor. Tinha grande importância por se constituir numa encruzilhada.

 

Conteúdo

Esta carta, apesar de muito curta, é muito profunda em conteúdo. Nela Inácio é mais pessoal, revelando mais dos seus pensamentos e sentimento, e mais incisivo nas exortações. Embora ele elogie a igreja – como sempre – e justifique a sua exortação no desejo de fortalecer e não na necessidade de correção, podemos ver, pela diferença de assunto entre as cartas, que ele trata de questões específicas de cada igreja.

Não é que eu tenha sabido alguma coisa desse tipo a vosso respeito, mas, pelo amor que vos tenho, eu vos advirto, prevendo as ciladas do diabo.

Apesar desta justificativa acima, podemos perceber que o tipo de exortação desta carta foi destinado apenas aos cristãos de Trália e de Esmirna. Diferente de Magnesia, onde o problema era o legalismo, aqui observa-se a influência do docetismo. E por isso ele exorta os crentes a “usar somente alimento cristão, abstendo-vos de toda erva estranha, que é a heresia”. Fica claro a que tipo de heresia estava se referindo:

Como dizem alguns desses ateus, isto é, infiéis, se Jesus sofreu apenas aparentemente – eles que vivem apenas em aparência – então, por que estou acorrentado?

E a resposta a esta distorção da verdade ele dá de uma forma muito parecida com o que viria a ser futuramente o famoso credo apostólico:

Sede, portanto, surdos quando alguém vos fala sem Jesus Cristo, da linhagem de Davi, nascido de Maria, que verdadeiramente nasceu, que comeu e bebeu, que foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pilatos, que foi verdadeiramente crucificado e morreu à vista do céu, da terra e dos infernos. Ele realmente ressuscitou dos mortos, pois o seu Pai o ressuscitou, e da mesma forma o seu Pai ressuscitará em Jesus Cristo também a nós, que nele cremos e sem o qual não temos a verdadeira vida.

O tema do respeito aos lideres aparece novamente, como sempre, na carta do mártir. E mais uma vez de modo tal que surpreende-nos pela força das expressões que usa para reforçar a imagem do bispo:

Da mesma forma, todos respeitem os diáconos como a Jesus Cristo, e também ao bispo, que é a imagem do Pai, e os presbíteros como à assembleia dos apóstolos. Sem eles, não se pode falar de Igreja.

Destaca-se ainda um trecho muito distinto do texto, em que o escritor se dirige de forma mais pessoal e se revela um pouco aos seus leitores, confessando suas preocupações, suas tentações, seus dons:

Penso muitas coisas em Deus, mas limito-me, a fim de não me perder em vanglória. De fato, sobretudo agora, é preciso que eu tema e não dê atenção àqueles que me enchem de orgulho. Aqueles que me falam assim, na verdade me flagelam. Desejo sofrer, mas não sei se sou digno disso. Minha impaciência, para muitos não transparece, mas me combate muito. Necessito de mansidão, que pode destruir o príncipe deste mundo. Poderia eu vos escrever sobre as coisas celestes? Temo, porém, fazer-vos mal, pois ainda sois crianças. Perdoai-me. Não podendo assimilar, poderíeis sofrer indigestão. Quanto a mim, embora esteja acorrentado e me seja possível conceber as coisas celestes, as hierarquias dos anjos, os exércitos dos principados, as coisas visíveis e invisíveis, não sou ainda discípulo. Falta-nos muitas coisas para que Deus não nos falte.

CARTA AOS ROMANOS

A carta de Inácio os crentes de Roma parece ter um único objetivo: dissuadi-los de qualquer tentativa de livra-lo da condenação. Inácio sabia que os irmãos romanos muito amavelmente iriam tentar salvá-lo da morte, mas tinha convicção de que queria ir embora deste mundo e ir encontrar Deus. Por isso adverte com expressões fortes, dizendo até “receio, porém, que o vosso amor me faça mal”, para desencorajar qualquer tentativa de livra-lo da execução.

Inácio via o martírio como a melhor coisa para si, por vários motivos. Primeiro porque era o caminho para encontrar a Deus:

Escrevo a todas as Igrejas e anuncio a todos que, de boa vontade, morro por Deus, caso vós não me impeçais de o fazer. Eu vos suplico que não tenhais benevolência inoportuna por mim. Deixai que eu seja pasto das feras, por meio das quais me é concedido alcançar a Deus.

Segundo, o martírio era visto por ele como uma forma de aperfeiçoamento, um último passo no discipulado, uma conclusão para ser um completo imitador de Cristo:

Perdoai-me; sei o que me convém. Agora estou começando a me tornar discípulo. Que nada de visível e invisível, por inveja, me impeça de alcançar Jesus Cristo. Fogo e cruz, manadas de feras, lacerações, desmembramentos, deslocamento de ossos, mutilações de membros, trituração de todo o corpo, que os piores flagelos do diabo caiam sobre mim, com a única condição de que eu alcance Jesus Cristo.

Quarto, o martírio era o caminho para a vida eterna, a verdadeira vida. Tanto que ele pede “não queirais que eu morra”, se referindo obviamente à vida. Ou seja, morrer executado significaria a vida eterna, e permanecer vivo neste mundo significaria continuar “morto”:

Meu parto se aproxima. Perdoai-me, irmãos. Não me impeçais de viver, não queirais que eu morra. Não me abandoneis ao mundo, não seduzais com a matéria quem quer pertencer a Deus. Deixai-me receber a luz pura; quando tiver chegado lá, serei homem.

E a quinta motivação que encontramos é o total desprezo por este mundo. Encontramos nele um espírito parecido com o do apóstolo Paulo quando diz “porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro”. Parecido, porque o apóstolo ainda entendia que a sua permanência neste mundo era necessária para ser “sal e luz”, enquanto que o bispo de Antioquia já não via motivo para permanecer. Será que pela idade? Pelo desejo de testemunhar com a própria morte? Não está claro isso, só está muito claro que a sua intenção era realmente o martírio:

Não sinto prazer pela comida corruptível, nem me atraem os prazeres desta vida. Desejo o pão de Deus, que é a carne de Jesus Cristo, da linhagem de Davi, e por bebida desejo o sangue dele, que é o amor incorruptível.

Não quero mais viver conforme os homens. Se quiserdes, assim o será. Desejai isso, para que também vós possais ser amados por Deus.

 

REFERÊNCIAS HISTÓRICAS

Esta é mais uma carta que foi escrita de Esmirna, na presença de crentes efésios que estavam ali. Havia também um homem chamado Croco, do qual não temos mais informações, e alguns mensageiros que um grupo de sírios que foi à frente de Inácio em direção a Roma:

De Esmirna, eu vos escrevo essas coisas, por meio de efésios dignos de serem chamados felizes. Entre muitos outros, está comigo Croco, nome que me é caro. Creio que conheceis os que foram à minha frente da Síria até Roma, para a glória de Deus. Avisai-os que estou perto.

E também as igrejas que foram ao seu encontro, na figura dos bispos, às quais ele escreveu suas cartas:

Meu espírito vos saúda, bem como o amor das Igrejas que me receberam em nome de Jesus Cristo, e não como simples viajante. Embora não as tenha encontrado fisicamente no meu caminho, elas me precederam de cidade em cidade.

 

EPÍSTOLA AOS DE FILADÉLFIA

A breve epístola à igreja da Filadélfia é mais uma exortação à unidade, mas neste caso por um motivo muito particular. Inácio revela ter estado ali naquela igreja, e parece ter havido uma divisão um tempo depois. Ele mesmo se justifica dizendo que a sua pregação sobre a unidade quando esteve no local não tinha nenhuma intenção específica, e que ele não sabia da divisão que estava por acontecer, mas que foi o Espírito que lhe deu aquelas palavras.

Estando no meio de vós, gritei, disse em alta voz, uma voz de Deus: ‘Permanecei unidos ao bispo, ao presbitério e aos diáconos!’ Aqueles suspeitaram que eu disse isso porque previa a divisão de alguns, mas aquele pelo qual estou acorrentado é minha testemunha de que eu não o sabia através da carne. Foi o Espírito que me anunciou, dizendo: “Não façais nada sem o bispo, guardai vosso corpo como templo de Deus, amai a união, fugi das divisões, sede imitadores de Jesus Cristo, como ele também o é do seu Pai”.

Podemos encontrar também um pequeno esboço de teologia sistemática nesta carta, quando ele discorre sobre a salvação dos profetas:

Amemos os profetas, porque eles também anunciaram o Evangelho, esperaram nele e o aguardaram. Crendo nele, foram salvos; permanecendo na unidade de Jesus Cristo, santos dignos de amor e admiração, receberam o testemunho de Jesus Cristo e foram admitidos no evangelho da nossa esperança comum.

No mais, os assuntos são os mesmos: unidade, respeito aos líderes e cuidado com as heresias e o judaísmo.

 

Referências Históricas

Nesta carta Inácio faz referência ao bispo na igreja destinatária, mas não diz o nome dele. Refere-se ainda a Fílon, à igreja da Cicília, a Reo Agatópodo, a Burro, e à igreja de Trôade, de onde escreve:

Quanto a Fílon, o diácono da Cilícia, homem comprovado que agora me ajuda na Palavra de Deus com Reo Agatópodo, homem eleito que, tendo renunciado à vida, me acompanha desde a Síria, eles vos dão testemunho.

Saúda-vos o amor dos irmãos que estão em Trôade, de onde vos escrevo, por intermédio de Burro, enviado pelos efésios e esmirniotas para me honrarem.

CARTA AOS ESMIRNOTAS

Esta carta, como já foi citado, dá uma especial atenção aos perigos das heresias docetistas, que afirmavam Jesus apenas aparentar ter um corpo físico, mas ser apenas espiritual. O contraponto de Inácio é bem claro:

Ele sofreu tudo isso por nós, para que sejamos salvos. E ele sofreu realmente, assim como ressuscitou verdadeiramente. Não sofreu, apenas na aparência, como dizem alguns incrédulos. São eles que existem apenas na aparência.

E nesta apologia à existência carnal de Jesus encontramos um relato da cena em que Jesus se apresenta aos discípulos após a ressurreição. O que chama atenção é esta fala de Jesus, que não é encontrada nos relatos dos evangelhos. Será que ele ouviu isto direto dos apóstolos?:

Quando veio até aos que estavam em torno de Pedro, lhes disse: “Pegai, tocai-me, e vede que eu não sou espírito sem corpo.” E imediatamente eles o tocaram e, ao contato com sua carne e seu espírito acreditaram.

Sobre a importância de se crer na ressurreição de cristo Inácio afirma que “até para os seres celestes, a glória dos anjos, os principados visíveis e invisíveis, se não crerem no sangue de Cristo, haverá julgamento”. E faz um apelo à avaliação da conduta daqueles que estavam tentando espalhar ensinamentos diferentes do evangelho:

Considerai aqueles que têm opinião diferente sobre a graça de Jesus Cristo, que veio até nós: como eles são opostos ao pensamento de Deus! Não se preocupam com o amor, nem com a viúva, nem com o órfão, nem com o oprimido, nem com o prisioneiro ou liberto, nem com o faminto ou sedento.

E sobre e episcopado, temos as mesmas recomendações de sempre, e as mesmas surpresas quanto à autoridade que se lhes dá:

Sem o bispo não é permitido batizar, nem realizar o ágape. Tudo o que ele aprova, é também agradável a Deus, para que seja legítimo e válido tudo o que se faz.

De agora em diante, convém retomar o bom senso e, enquanto ainda temos tempo, converter-nos a Deus. É bom reconhecer a Deus e ao bispo. Quem respeita o bispo, é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo, serve ao diabo.

 

Referências Históricas

As mesmas da carta anterior e mais algumas saudações à família de Távia, a Alce, Dafno e Eutécno. A carta foi escrita a partir de Trôade.

 

CARTA A POLICARPO

Esta carta tem uma natureza diferente das outras porque se dirige não a uma igreja, mas a uma pessoa específica: Policapo, o bispo da Igreja de Esmirna. Mesmo assim, em vários pontos ele se dirige ao leitor no plural, dando a entender que mais pessoa leriam a carta, ou que Policarpo deveria passar adiante os conselhos recebidos, ou talvez simplesmente Inácio se dirigia realmente à igreja, mas através de seu representante, o bispo.

Não se encontre entre vós nenhum desertor. Que o vosso batismo seja como escudo, a fé como elmo, o amor como lança, a perseverança como armadura. Vossos depósitos sejam as vossas obras, para que possais retirar as somas a que tendes direito. Sede, portanto, pacientes na mansidão, uns com os outros, como Deus o é convosco.

Mas além destes conselhos à comunidade cristã em geral, há muitos conselhos ao próprio policarpo como bispo. Pelo tom em que Inácio fala, podemos perceber que Policarpo era alguém jovem, com menos experiência na liderança de uma igreja:

Eu te exorto, pela graça de que estás revestido, a apressares tua corrida, e exortares a todos, para que sejam salvos. Justifica tua dignidade episcopal com total solicitude física e espiritual. Preocupa-te com a unidade, acima da qual nada existe de melhor. Suporta a todos, assim como o Senhor te suporta. Suporta a todos no amor, como já o fazes. Cuida que as orações não cessem. Pede sabedoria maior do que essa que tens. Vigia com espírito vigilante. Fala a cada um em particular, conformando tua maneira à de Deus. Carrega as doenças de todos, como perfeito atleta. Onde o trabalho é maior, maior é o ganho.

Além de estes e muitos outros conselhos mais, o futuro mártir ainda pede para que seu irmão escreva às outras igrejas para as quais ele não teve tempo de escrever, e também que Policarpo envie um mensageiro à igreja na Síria.

 Referências Históricas

Além das pessoas já referidas em outras cartas, nesta aparecem saudações à esposa de Epítropo e toda a sua família e a de seus filhos, a Átalo e a Alce.

FONTES

As análises das cartas foram feitas com base nas traduções disponibilizadas nos seguintes sites:

http://www.e-cristianismo.com.br

http://www.arminianismo.com

Autoria: Carlos Ferreira e Paulo Marins

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